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Cultura » Straub, radical e romântico

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Luiz Carlos Merten

18 Janeiro 2012 | 00h25

Pergunto-me como meu colega Antônio Gonçalves Filho receberá minha confissão, se é que vai lê-la. Toninho ama Rainer Werner Fassbinder, que ocupa um lugar bem alto no seu pedestal – Olimpo? – de autores preferidos. Eu reconheço a importância de Fassbinder, como reconheço a de Werner Herzog, mas, salvo filmes muito particulares – ‘O Casamento de Maria Braun’, ‘O Enigma de Kaspar Hauser’ -, nenhum dos dois tem lugar fixo na minha galeria. Em matéria de novo cinema alemão, sempre fui mais Jean-Marie Straub e Alexander Kluge. Tive um choque quando vi ‘A Crônica de Ana Madalena Bach’ e outro quando descobri ‘Artistas na Cúipula do Circo: Perplexos’. São, até hoje, dois dos filmes mais radicais, em termos de pesquisa de linguagem, que já vi. Kluge pode não ter inventado, mas com certeza perfeccionou o filme-dossiê, centrado, no caso dele, em personagens femininas. Algumas coisa a ver com a ‘Lilian M’ de Carlos Reichenbach? O próprio Carlão poderia esclarecer. O primeiro Kluge foi ‘Anita G, ou Uma Mulher sem História’, interpretado por sua irmã, Alexandra Kluge,  relatando as experiências de uma judia na Alemanha do pós-guerra. Veio depois ‘Artistas’, sobre outra mulher, uma trapezista, que tenta montar o próprio circo. Muita gente reprova justamente o que amo em Kluge – o excesso de símbolos, as referências cifradas. Tenho de agradecer ao Instituto Goethe que, em Porto Alegre, já mostrava esses filmes e mostrou também ‘Os Não-Reconciliados’ e ‘A Crônica’. Straub nasceu na França, em Metz, senão me engano, e foi assistente de Jean Renoir, de Robert Bresson e Jacques Rivette. Convocado a prestar serviço militar e a lutar na Guerra da Argélia, fugiu para a Alemanha, adquiriu a cidadania alemã, mas depois se transferiu para a Itália, acompanhado por sua mulher e principal colaboradora, Danièle Huilletr, que, a partir de determinado ponto, passa a assinar os filmes com ele. Carlos Adriano e Bernardo Worobob visitaram a casa de ambos em Roma, cheia de bichos, segundo me contaram. A morte de Danièle foi um baque, mas Straub recomeçou, sem ela, mas com o mesmo rigor. ‘Os Não Reconciliados’ trata dos sobreviventes do nazismo, mas, mais que o tema, foi a forma que fez a fama do filme, que dura pouco mais de uma hora e joga com a multiplicidade de tempo e espaço. Se houve um diretor que quis reinventar D.W. Griffith, foi o Straub de ‘Os Nâo-Reconciliados’, mas um Griffith filtrado por Jean-Luc Godard, com textos discursivos e intermináveis (um, pouco como o Godard de ‘Les Carabiniers’, Tempo de Guerra). Na sequência, veio ‘A Crõnica’, que aborda a complexidade de Johan Sebastian Bach, o músico que quis falar com Deus, por meio de sua mulher. Não existe preto e branco mais rigoroso do que o desse filme, que sugere contrastes psicológicos, sociais e até metafísicos. Ouso dizer que é o filme que Bresson gostaria de ter feito, Surgiram depois ‘Othon’, baseado na peça de Corneille, ‘A Morte de Empédocle’ e ‘Gente da Sicilia’, cuja origem está nas conversas do escritor Elio Vitorini com sua mãe. Por que estou falando de Straub? Porque começou hoje um ciclo de seus filmes no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Nada melhor para iniciar o ano dos cinéfilos, se bem que eu vou ao inferno, ou aonde for preciso, para proclamar que os cinéfilos também estão muito bem servidos por um autor nos antípodas de Straub, Steven Spielberg (com seu ‘Cavalo de Guerra’). Não sei se a programação contempla “As Lições de História’, com base em B. Brecht, e ‘Moisés e Arão’, da ópera de Schonberg, mas, em caso afirmativo, são imperdíveis. Muita gente poderá achar esses filmes chatos – será um risco -, mas o que me encanta em Straub (e Huillet), mais que o alegado marxismo dos dois, é o romantismo dele, que a tudo resiste. Não sei por que, mas o embate entre misticismo e paganismo que está na essência do cinema de Straub, me lembrou agora Terrence Malick e seu supervalorizado ‘A Árvore da Vida’. Malick, posando de radical, assume compromissos estéticos – ouço coleguinhas dizerem: honrosamente – que deixariam Straub ‘enojado’ (ainda estou com o espanhol nos meus ouvidos). Estou indo para Minas, Tiradentes, mas algum Straub quero (re)ver/desfrutar antes de partir.