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Luiz Carlos Merten

15 Março 2010 | 14h04

Na saída do teatro, o Sesc Consolação, fui jantar ontem com Dib Carneiro e Adriana Monteiro. Fomos ao Felipa, e eu adoro a bruschetta, seguida daquela salada Carmel que só de falar já me deixa salivando. Conversamos, entre outras coisas, sobre westerns. Adriana é jornalista e acaba de descobrir John Ford. Ela viu ‘Rastros de Ódio’ e ‘O Homem Que Matou o Facínora’. Me pediu indicações. Já contei para vocês que revi em Paris ‘A Conquista do Oeste’. O filme produzido pela Metro, em parceria com a Cinerama, é um épico de, sei lá, 200 minutos sobre o avanço da civilização branca rumo ao Oeste. Henry Hathaway e George Marshall são alguns dos diretores. Ford é outro. Ford pegou o episódio da Guerra Civil e, num projeto de encomenda, transformou estes 20 ou 25 minutos em algo completamente pessoal. Vocês que me acompanham aqui no blog sabem que, no ano passado, consegui realizar o sonho de uma vida. Fui visitar Monument Valley, a reserva em Utah que virou solo sagrado do western, desde que Ford descobriu aquela planície da qual irrompem mesetas e picos, compondo um cenário tão característico que outro diretor, indo filmar naquelas paragens, recolheu sua câmera, dizendo que a única maneira de enquadrar naquele espaço seria a de Ford. Chamado de ‘Homero’ de Hollywood,  ele fez da Odisséia o grande tema de seu cinema, contando a história de grupos de nômades, errando pelo território norte-americano em busca de um lar. Por isso mesmo os críticos dizem que Ford forjou a identidade dos EUA na tela. Falei em grupos sociais (colonos, índios), mas pelo menos uma vez Ford narrou a tragédia de um individualista, o solitário Ethan Edwards de ‘The Searchers’ (Rastros de Ódio). Seu estilo pode ser definido pelo título de um de seus primeiros filmes – ‘Straight Shooting’ (o verbo ‘to shoot’ tem duplo significado, tanto pode ser disparar quanto filmar). Ford filmava diretamente, sem firulas, movido por profundas convicções, mesmo que às vezes desse a impressão de estar brincando – dizia que não mexia muito a câmera porque, como os astros e estrelas ganhavam mais do que os pobres fotógrafos e cameramen, era justo que trabalhassem mais. Ford era de origem irlandesa e fez filmes enraizados nessa tradição. Um dos mais belos, o mais, é ‘Depois do Vendaval’, pelo qual ganhou um de seus quatro Oscars de direção, nenhum por westerns, embora fosse seu gênero de predileção, aquele pelo qual gostaria de ser lembrado.  O que posso sugerir para a Adriana? Veja o ‘Depois do Vendaval’, porque, como representação da utopia fordiana, talvez seja o filme mais característico, o que realmente sintetiza a obra do grande diretor.  Além dos seus bangue-bangues, Ford fez filmes de realismo social, algum melodrama, comédias. Encontram-se em DVD, além dos que ela já viu (‘Rastros de Ódio’ e ‘O Homem Que Matou o Facínora’) – ‘No Tempo das Diligências’, ‘Paixão dos Fortes’, ‘O Céu Mandou Alguém’, ‘Legião Invencível’, ‘Marcha de Heróis’ e ‘Depois do Vendaval’. Tenho inveja, no bom senrtido, de quem, nunca tendo assistido a esses filmes, resolva viajar na estética fordiana. Serão tantas descobertas (valores, paisagens, elencos). Vai fundo, Adriana!