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Luiz Carlos Merten

13 Setembro 2010 | 13h07

Na TV aberta – Rede Brasil, à 1h10 de amanhã -, será exibido o último dos três filmes que John Ford realizou em 1939, um ano emblemático da carreira do mestre. Embora ele já viesse se exercitando no western, foi com ‘Stagecoach’, No Tempo das Diligências, que consolidou sua participação no gênero (e fez uma das obras realmente definidoras da tendência). Na sequência de ‘Stagecoach’, Ford fez, no mesamo ano, ‘A Mocidade de Lincoln’ e ‘Ao Rufar dos Tambores’, que será o cartaz da Rede Brasil. O filme passa-se na época dos colonos, no período anterior à guerra pela independência dos EUA. Henry Fonda e Claudette Colbert, recém casados, se instalam no vale do Mohawk. Logo no começo, a chegada de um índio provoca o pânico de Claudette. Ele é amigo, mas, à meia luz, na soleira da porta, parece ameaçador. Ford joga com a ambiguidade. Mostra a conquista da terra como uma era sangrenta. Os brancos invadem território dos índios. Eles reagem. Na cena mais famosa, atacam a casa de Claudette e Fonda. Ele corre em busca de ajuda, perseguido por peles-vermelhas. Não tenho bem certeza, mas acho que foi o primeiro filme em cores de Ford – a fotografia é de Bart Glennon – e ela faz toda a diferença, embora também me pareça muito interessante o contraponto entre a perseguição da diligência pelos índios e agora a do solitário Fonda pelos guerreiros do Mohawk. Em um e outro caso, Ford estabeleceu um padrão de filmar a perseguição que virou feijão com arroz em Hollywood. ‘Drums along the Mohawk’ não ostenta a fama de ser um dos grandes filmes de Ford, mas acho que está lá, intacto, o tema fordiano de como é difícil – quanto custa – construir uma civilização. O próprio Ford admitiu mais tarde que havia matado mais índios do que o General Custer (nos filmes) e se penitenciou fazendo ‘O Crepúsculo de Uma Raça’, Cheyenne’s Autumn, embora o estúdio (a Warner) não lhe tenha permitido fazer o filme com índios de verdade, como ele queria, e o cineasta tenha recorrido a atores de Hollywood (Gilbert Roland, Dolores Del Rio, Sal Mineo etc). Por que estou falando de John Ford? Porque o cartaz de amanhã da TV vai ser um aperitivo para a grande retrospectiva que começa na semana que vem, dia 22, no CCBB, no daqui e também nos do Rio e de Brasília. Ford fez mais de 100 filmes ao longo de sua carreira – incluindo os westerns do período silencioso, de dois e três rolos, e os documentários de guerra, foram em torno de 140, dos quais a programação vai resgatar mais ou menos 1/4. Serão 36 longas e um curta, todos projetados em película – já pensaram? – e só um em DVD, justamente ‘Directed by John Ford’, que nem é dirigido pelo grande cineasta, mas por Peter Bogdanovich, oferecendo, ao vivo e a cores,  um interessante retrato do gênio, como era no trabalho e em pessoa. Acho que vai ser uma programação e tanto, com muitos filmes restaurados, em cópias zero bala, e com os acréscimos de um livro/catálogo e de um curso sobre o grande diretor, que é chamado de Homero de Hollywood por suas epopeias de desenraizados, embora justamente a exceção, a tragédia de um solitário – o Ethan Edwards de ‘Rastros de Ódio’, interpretado por John Wayne -, seja (para mim e para o torcida do Mengo e do Timão reunidas) a obra-prima de Ford. Muitos críticos gostam de citar o título de um velho filme de 1917,  ‘Straight Shooting’, como a melhor definição do  estilo do artista. ‘Shoot’ tem duplo sentido em inglês. Tanto significa filmar quanto disparar (o revólver). Ford nunca foi de firulas. Filmava sem rodeios – câmera quase imóvel, panorâmicas descritivas, poucos closes. Conta a lenda que raramente repetia os takes e que adorava improvisar com os atores e técnicos, com os quais também não ensaiava as cenas. Straight shooting. e em Monument Valley, aquele solo sagrado que tive o privilégio de visitar no ano passado. Ford ganhou quatro vezes o Oscar de direção, um recorde. Em 1935, por ‘O Delator’; em 1940 e 41, por ‘Vinhas da Ira’ e ‘Como Era Verde o Meu Vale’; e em 1952, por ‘Depois do Vendaval’. Tenho para mim, que deveria ter ganhado pelo menos mais duas – em 1956, por ‘Rastros de Ódio’, mas foi o ano do George Stevens de ‘Assim Caminha a Humanidade’; e 1962, por ‘O Homem Que Matou o Facínora’, em que antecipou, de pouco, os pistoleiros do entardecer de Sam Peckinpah. Durante boa parte da retrospectiva, vou estar no Rio, por causa do festival. Espero que consiga conciliar alguma coisa (muita?) de Ford – mas o evento vai rolar simultaneamente nas duas cidades? Ainda não sei. O que sei é que será imperdível.