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Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2008 | 19h45

Jorge comenta o meu post sobre Robert Aldrich para dizer que acha ‘Os Doze Condenados’ um bom filme – eu acho ótimo -, mas não lembra o título de outro filme do diretor que ele sabe que é um dos meus favoritos (por causa dos textos nos filmes da TV no ‘Caderno 2’). Este outro filme, de trem, é ‘O Imperador do Norte’, com aquele incrível duelo de machados entre Lee Marvin e Ernest Borgnine. O filme não é uma adaptação de Jack London, mas é o ‘Heróis e Vagabundos’ do Aldrich. Lee Marvin desafia o guarda Borgnine viajando de graça nos trens durante a grande depressão dos anos 30. Todo Aldrich se faz presente – eletricidade, virilidade, um sentido superior do espetáculo e aquela noção do mundo em perigo que era essencial para o grande diretor. Jorge prossegue o comentário dele pedindo minha opinião. Quer saber se vale comprar uma caixa de DVDs com quatro filmes do Steve McQueen. O melhor de todos é ‘Os Implacáveis’, um grande Peckinpah – que Roger Donaldson ‘ousou’ refilmar com Kim Basinger e Alec Baldwin; chama-se ‘A Fuga’ e é uma m… É curioso que o próprio Peckinpah tenha iniciado ‘A Mesa do Diabo’ (The Cincinnatti Kid), outro dos quatro filmes da caixa, este na linha do cult ‘Desafio à Corrupção’ (The Hustler), de Robert Rossen, com Paul Newman. Peckinpah teve problemas com os produtres e foi substituído por Norman Jewison, que fez aqui seu primeiro filme sério, ou mais ambicioso, logrando certa criação de clima. Gosto de ‘Tom Horn’, mas é um western lento, crepuscular, alguma coisa na vertente do superior ‘Um Homem Difícil de Matar’ (Monte Walsh), de William Fraker, com Lee Marvin, que lhe é contemporâneo. O pior desses filmes é de um diretor que admiro muito – ‘Quando Explodem as Paixões’ (Never So Few), com Frank Sinatra, Gina Lollobrigida e McQueen. Meio melodrama, meio filme de guerra (na Coréia), não honra a tradição de John Sturges como diretor de ação, mas marcou o primeiro encontro do cineasta com McQueen, que ainda não era astro e a quem ele catapultou com dois filmes cultuados. ‘Quando Explodem’ é de 1959 e, no ano seguinte, Sturges transpôs ‘Os Sete Samurais’, de Akira Kurosawa, para o Velho Oeste e fez ‘Sete Homens e Um Destino’. Já disse mil vezes que foi Sturges, depois de fazer grandes westerns, quem inventou o spaghetti western – não Leone -, justamente com sua adaptação de ‘Shichinin no Samurai’, trilha de Elmer Bernstein. Revi o filme outro dia na TV paga e não conseguia desgrudar o olho justamente do McQueen. O cara era um príncipe. Porte atlético, gestos elegantes e viris. Três anos mais tarde, Sturges pegou parte do elenco mítico de ‘Sete Homens e Um Destino’ – McQueen, Charles Bronson, James Coburn etc – e fez outro filme de gênero que se tornou cult, senão exatamente clássico, a aventura de guerra ‘Fugindo do Inferno’. Foi o filme que realmente consolidou o mito de McQueen, que fugia do campo de concentração no lombo de uma motocicleta, esculpindo o mito do herói a toda velocidade que prosseguiu com o thriller ‘Bullitt’, de Peter Yates, cuja perseguição de carros nas ruas de São Francisco permanece até hoje, 40 anos depois, um momento de antologia. Steve McQueen morreu em 1980, aos 50 anos, de câncer. Foi, e ainda é, um dos maiores ícones masculinos da tela. Cada um deve ter o seu McQueen preferido. Eu gosto dos filmes dele com Peckinpah (‘Os Implacáveis’ e ‘Dez Segundos de Perigo’/Junior Bonner), não resisto a ‘Sete Homens e Um Destino’ e ‘Fgindo do Inferno’, mas o ‘meu’ McQueen é ‘Os Rebeldes’ (The Reivers), que Mark Rydell adaptou de um relato curto de William Faulkner. O filme termina com uma corrida de cavalos. Um garoto é o jóquei e entra na trilha a voz de um velho relatando, muitos anos depois, o que foi aquele momento em sua vida. É de arrepiar. Outro dia comprei ‘Os Rebeldes’ nas Lojas Americanas por R$ 12,99 (ou coisa que o valha). Revi a cena e aquele garoto era eu, graças a este mistério que a chamada ‘identificação projetiva’ faz com a gente. Steve McQueen realmente faz parte das minhas emoções inesquecíveis no cinema.