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‘Stella Dallas’

Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2008 | 12h55

Volto a King Vidor, diretor que admiro, mas que não conheço tanto quanto gostaria. Da sua fase silenciosa, conheço somente ‘The Crowd’, que vi numa retrospectiva que lhe prestou o Festival de Veneza – ou era sobre os clássicos de Hollywood nos anos 20? Seja como for, o esmagamento do indivíduo na (ou pela) cidade grande era mostrado por meio de imagens que, com certeza, influenciaram o Chaplin de ‘Tempos Modernos’. King Vidor expressou o movimento íntimo de um homem contra a pulsação da cidade. Chaplin pegaria a idéia e faria Carlitos ser engolido pela máquina. Nunca vi ‘A Cidadela’, mas adoraria conhecer a adaptação que o rei Vidor fez do romance de A.J. Cronin, autor hoje obsoleto, mas que muito li (com outros dois ingleses de prestígio, hoje esquecidos, Charles Morgan e W. Somerset Maugham). ‘América’, ‘Duelo ao Sol’ e ‘Fúria de Desejo (Ruby) me enlouqueceram. Era muito jovem, garoto quando vi esses filmes, e o lirismo do primeiro e e o erotismo dos dois restantes me deixaram pasmo. Não existe filme mais tesudo, no mundo, do que ‘Ruby’, que Valerio Zurlini viu, pois cenas inteiras que expressam o desejo de Eleonora Rossi Drago por Jean-Louis Trintignant (e vice-versa) em ‘Verão Violento’ saem de ‘Fúria do Desejo’, ou pelo menos eu as identifico assim. E eu gosto de ‘Homem sem Rumo’ (Man without a Star), western em que Kirk Douglas faz pistoleiro que vive fugindo da civilização, num Velho Oeste que encolhe, representado pelo arame farpado com que os grandes proprietários delimitam suas terras. Estou voltando a King Vidor porque isso me permite falar sobre ‘Stella Dallas’, que citei outro dia como a matriz do melodrama e não me lembro mais quem foi, Mário Kawai ou Fábio Negro, me contestou, lembrando que, em 1937, quando Vidor fez ‘Mãe Redentora’, John M. Stahl já dirigiria seus dois clássicos que Douglas Sirk iria refazer nos anos 50 – ‘Imitação da Vida’ e ‘Sublime Obsessão’. Os remakes foram filmados na ordem inversa, primeiro ‘Magnificent Obsession’ e, depois, ‘Imitation of life’. Sei disso, mas embora tenhamos mães sofredoras (duas) em ‘Imitação’, Daniel Filho, em sua autobiografia, ‘O Circo Eletrônico’, que também é uma história da TV (e da telenovela) no Brasil, conta como a Stella Dallas de Barbara Stanwyck foi a matriz das mães sofredoras e redentoras dos folhetins de Janete Clair. Por extensão, terminei rotulando ‘Stella Dallas’ como matriz do melodrama, mas o gênero já existia e fora ‘matrizado’, não apenas por John M. Stahl mas por Henry King, que fez a primeira versão de ‘Mãe Redentora, e pelo próprio Stahl, quando dirigiu, em 1931 ou 32, ‘A Esquina do Pecado’ Agora vou mistuirar alhos com bugalhos, mas, realmente, telenovela sem mãe sofredora não existe. Comecei a ver ‘A Favorita’ no hospital e agora companho sempre que posso porque quero ver a ‘punição da Flora. Telenovela é tão bom – emoções primárias. Havia visto – por conta de outra cirurgia – parte de ‘Cobras e Lagartos’, também escrita por João Emanuel Carneiro, co-roteirista de ‘Central do Brasil’. Era bem legal, mas tinha o perfil de novela das 7, com muito humor. Daniel de Oliveira, ótimo, fazia o mocinho, mas nem todo o talento da Daniel impediu que Lázaro Ramos roubasse a trama com seu personagem. Não sei se vocês se lembram, mas, na época de ‘Cobras e Lagartos’, João Emanuel foi acusado por Walter Salles de se apropriar do que seria ‘Linha de Passe’ para criar o par romântico – o motoboy e a instrumentista musical, nem me lembro mais se era pianista ou violinista – da novela. Sem procuração para isso, até defendi o João Emanuel, dizendo que o fato de a novela ter motoboy e uma riquinha com pendores musicais certamente não inviabilizaria o filme. Como roteiristas, Walter Salles, Daniela Thomas e George Moura deram a volta por cima e, muito provavelmente, melhoraram o que virou ‘Linha de Passe’, já que o filme terminou sendo um dos melhores (ou o melhor…) brasileiro do ano que se encerra. Mas, enfim, comecei a ver ‘A Favorita’, até porque a inversão entre heroína e vilã, Donatela e Flora, as personagens de Cláudia Raia e Patricia Pillar, foi considerada um marco na história da telenovela. Todo mundo falava disso no jornal. O sucesso de público também é indiscutível, mas eu confesso que não ando com paciência para o andar da carruagem de ‘A Favorita’. Estamos na fase do nehe-nhe-nhem. Não tem nenhuma (sub)trama que esteja conseguindo me prender. Gente mais chata, e o merchandising é escandaloso. Chega de produtos da Natura e de CBDs (ou CDBs) do Santander. Admiro João Emmanuel, mas os acessos de loucura da personagem de Patricia Pillar estão me deixando com o pé atrás, aquelas risadas histéricas, coisa e tal. Fico pensando se ele não vai apelar para isso para ‘punir’ a Flora. Matá-la, seria muito fácil. Enlouquecer, também. Surpreenda-me, por favor, João Emanuel. Por que ‘A Favorita’ entrou neste texto? Ah, sim, porque não há novela boa sem mãe sofredora e Donatela, Cláudia Raia, é a Stella Dallas da vez. Aliás, vou elogiar a Cláudia. Eu, que não havia gostado dela no cinema (o horroroso ‘Matou a Família’) nem no musical (o acrobático ‘Sweet Charity’), estou acreditando no choro de Cláudia Raia na novela das 8. A malvada já me cansou, mas a boazinha… É ótima.