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Luiz Carlos Merten

02 Março 2007 | 09h00

Cheguei ontem à noite, em casa, dei uma zapeada na TV paga e descobri que estava passando O Retorno de Jedi. Acho a maior graça – quando o filme estreou nos cinemas, há mais de 20 anos, chamava-se assim, Agora é Star Wars 6, o fecho da trilogia de George Lucas. Não desgrudei o olho antes que passasse o último crédito. Já disse mil vezes que tenho a maior necessidade de ação e aventura no cinema. Não é só um estímulo intelectual. É físico, também. Gosto de todo tipo de filme e não discrimino nenhum. O Retorno de Jedi é o tipo do filme que sempre me produz uma exaltação. Tem todos aqueles efeitos, aquela fantasia, aquela barulheira, mas, no limite, a experiência não é menos intensa do que diante de um filme tão intimista e espiritualizado como Pai e Filho, do Sokúrov. Jedi é um épico estelar, narra a luta final dos rebeldes contra o Império que quer aniquilá-los (e eles vencem a máquina), mas é, acima de tudo, uma história de pai e filho. Me emociono demais com a relação de Luke Skywalker e Darth Vader. Acho lindo quando Obi-wan Kenoba diz a Luke que ele tem uma irmã, que foi mantida em segredo, todos aqueles anos, e Luke imediatamente faz a ponte e diz – Léia. Lucas criou sua saga no começo dos anos 70. Previa três trilogias e ele começou pela intermediária. Desistiu da última. Em vez dos nove filmes originais, teremos agora somente os seis já realizados. Não gosto muito de ler roteiros. São páginas mortas. Mas tenho particular interesse por alguns que não foram filmados. As versões de Em Busca do Tempo Perdido de Visconti (com Suso Cecchi D’Amico) e Losey (com Harold Pinter). A trilogia final de Star Wars. Sempre quis saber o que Lucas imaginava depois que Luke e seus amigos derrotam o império, que os ewoks fazem aquela festa e que Annakin e Obi se reencontram na eternidade com Yoda. Quase morro de rir com todas as paródias que foram feitas de Yoda, mas quando aquele pequenino diz que se pode mover o mundo só com a imaginação eu acredito piamente. A ligação familiar é a mais intensa possível, para mim, pelo menos, em toda saga e no seu desfecho, especialmente. Aquela fração de segundo em que Luke e o pai, dentro do combate, estão prestes a se aniquilar e o sentimento resgata Darth Vader do lado escuro da Força, chega a me dar um arripio enquanto escrevo. Não sei, sinceramente, como as pessoas conseguem discriminar suas emoções. A produzida por Star Wars 4, 5 e 6 tem de ser de segunda. Por que? Lucas contou com a assessoria do mitólogo Joseph Campbell na elaboração de sua segunda trilogia (a que fez primeiro). Nunca havia entendido porque Lucas começou pela segunda. Não era só por causa da tecnologia, que ele foi desenvolvendo (e aprimorando). É porque a segunda trata da construção do herói. Seria muito estranho começar com a construção do vilão. Como já conhecemos Luke, Darth Vader e o resgate de Annakin, nossa relação fica muito mais forte com eles. Acho O Império Contra-Ataca, o segundo filme da segunda trilogia, dirigido por Irwin Kershner, o melhor de todos, mas adoro O Retorno de Jedi, não apenas por ser o fecho admirável da série, mas porque acho o diretor Richard Marquand muito interessante. Ele morreu cedo, com menos de 50 anos. Rubens Ewaldo Filho, em seu dicionário de cineastas, relata que foi num acidente bizarro num hospital e eu nunca procurei saber qual foi. A definição me basta – bizarro. Marquand fez relativamente poucos filmes, mas três me interessam muito. O Buraco da Agulha, O Retorno de Jedi e o mais fraco dos três, mesmo assim muito curioso, O Fio da Suspeita. Tratam de relações de amor e ódio. Kazan disse certa vez que havia feito Clamor do Sexo – um de meus filmes cults – depois de anos de psicanálise. Queria dizer como devemos perdoar a nossos pais, e não só a eles, pelo mal que possam nos ter feito. O Retorno de Jedi, agora Star Wars 6, é sobre isso. Lamento por quem fica só na exterioridade e não consegue ver que a estética de efeitos se coloca, aqui, a serviço de algo muitomais denso e profundo do que naves se perseguindo no espaço.