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Cultura » Stanley Kramer e ‘O Segredo de Santa Vitória’

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Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2008 | 11h40

Não entendo dessas coisas de tecnologia, vocês sabem, e tive de engolir as críticas – de quem? Do Fábio? – dizendo que o ‘Estado’ tem o pior sistema de validação dos comentários nos posts. De minha parte, quero dizer que estou achando ótimo que esses comentários me cheguem como e-mails. Uma, porque isso agora me faz abrir meus e-mails, coisa que me recusava a fazer. E dois, porque recebo os comentários de posts antigos, que, se fossem validados diretamente, como antes, iam me passar despercebidos. Hoje mesmo, ao abrir meus e-mails, encontrei comentários sobre posts que datam de meses atrás, um sobre Alan Ladd, o lendário Shane – até hoje não comentei o comentário, de quem?, sobre o livro de Paulo Perdigão, que disseca a obra-prima de Geoerge Stevens – e outro acho que sobre lançamentos, de pessoas que me pedem como conseguir cópias (DVDs) do filme ‘O Segredo de Santa Vitória’. Vocês estão falando daquele filme do Stanley Kramer com Anthony Quinn e Anna Magnani, lá pelo fim dos anos 60? Aquele de guerra, sobre a população de uma pequena cidade italiana que esconde sua safra de vinho dos ocupantes nazistas? Dei uma pausa e fui procurar na minha coleção de Guia de Filmes, que o antigo INC, Instituto Nacional de Cinemas, editava há coisa de 40 anos (ou mais). Encontrei a crítica sobre ‘O Segredo de Santa Vitória’ na edição de número 28. O autor do texto é Sérgio Augusto, que nem sei se lembra do que escreveu, mas vou transcrever um trecho. Sérgio Augusto começa contando que o diretor e produtor dispendeu meses de pesquisa procurando uma cidadezinha italiana para substituir a Santa Vitória original, que se modernizara excessivamente. Ele terminou encontrando Anticoli Corrado, pertinho de Roma, onde situou sua versão do livro de Robert Crichton (qual será seu parentesco com Michael?). Depois de relatar a ‘invasão’ de Anticoli por Kramer e sua trupe, Sérgio Augusto prossegue. “O resultado dessa invasão está resumuido em duas horas e meia de filmes colorido – fotografia de Giuseppe Rottunno! O acréscimo é meu -, no qual Anthony Quinn e Anna Magnani repetem os mesmos números de shows anteriores, Virna Lisi revive aquela condessa samaritana de antepassada memória e Hardy Kruger reencarna o oficial nazista prepotente mas de bom coração. Kramer, o invasor, não faz segredo – ‘Meu filme pretende provocar risos e lágrimas e agradar a todas as espécies de público, especialmente aqueles incapazes de ler e escrever.’ Após tantos libelos enfadonhos em sua carreira, o ingênuo liberal Kramer propõe sua mais audaciosa tese demagógica, um filme para analfabetos e sentimentalóides. Nesse particular, ‘O Segredo de Santa Vitória’ é sua obra mais bem sucedida.” Transcrevi este trecho não para ofender as pessoas que me pediam informações sobre o filme – para chamá-las de analfabetas e sentimentalóides -, mas para deixar registrada qual era o tipo de reação provocado pelos filmes do produtor e diretor Kramer. Talvez o representante máximo do cinema de mensagem de Hollywood, nos anos 50 e 60, Stanley Kramer denunciou o racismo e o nazismo em filmes que provocaram verdadeiros cataclismos na época, como ‘Acorrentados’, ‘Julgamento em Nuremberg’ e ‘Adivinhe Quem Vem para Jantar’. Esquecia-me do seu libelo contra a bomba atômica – ‘A Hora Final’. Kramer sempre teve os melhores elencos e técnicos, mas permanece, até hoje, como um dos casos de ódio mais viscerais da crítica, em toda a história do cinema. Muita gente, de muito menos ‘prestígio’ que ele, já foi reabilitada. Kramer, não, ou ainda não. Para a crítica, ele permanece como o retrato acabado do demagogo, o pior de Hollywood quando queria fazer cinema ‘sério’.