Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Sr. Política’

Cultura

Luiz Carlos Merten

10 Abril 2009 | 09h50

PORTO ALEGRE – Estava salvando o post anterior quando me bateu a dúvida. Ih! Disse que veria o Yamada, à tarde, se estivesse em São Paulo, mas veria mesmo? Porque hoje tem Wajda no outro ciclo, o do cinema polonês, no Centro Cultural Banco do Brasil. E um Wajda especial no CCBB, ‘Terra Prometida’. Fui correndo conferir e dá tempo.Yamada passa às 16 horas no CCSP, Wajda às 19 horas no CCBB. Demos uma página inteira no ‘Caderno 2’ de quarta, antecipando a estréia de ‘Katyn’. O filme trata de um episódio que marcou a consciência polonesa no século 20 e, de forma muito especial, marcou a do jovem Wajda. No começo dos anos 1940, cerca de 14 mil prisioneiros poloneses, entre lideranças civis e militares, foram mortos na floresta de Katyn, na Rússia. O crime, atribuído aos nazistas, na verdade foi cometido pelo Exército Vermelho, já preparando a sovietização da Polônia, após a 2ª Guerra. O pai do cineasta foi um dos mortos de Katyn. Ele sempre quis contar essa história, mas ela era tabu, até que, em 1990, Gorbatchev oficialmente pediu desculpas aos poloneses, admitindo a autoria russa do massacre. Wajda fez uma ficção que possui um rigor documentário. O filme é forte, talvez um pouco ‘classicão’ demais. Preciso rever. Em Berlim, no ano passado, o diretor estava preocupado com a utilização política de seu filme. Wajda sempre foi crítico do comunismo instalado na Polônia, mas nunca levou seu anticomunismo a ponto de apoiar as atuais lideranças russas. A ‘situação’ de lá queria integrar o lançamento de ‘Katyn’ ao processo eleitoral no país. Wajda foi veementemente contra. Não admira que Jane Fonda tenha se curvado perante ele e o tenha chamado de ‘Sr. Política’, quando lhe coube entregar o Oscar honorário, de carreira, que a Academia de Hollywood outorgou ao artista.
Vou abrir parágrafo. Wajda estudou pintura antes de se transformar em cineasta. Wajda muitas vezes é duro, seus filmes raramente são bonitos, no sentido de plásticos, mas a origem do pintor se manifesta em idéias visuais poderosas. Aquele Cristo de cabeça para baixo, a cruz invertida na igreja em ruínas de ‘Cinzas e Diamantes’, é metáfora da Polônia que se comunizava. E em ‘Sansão’, no qual fez uma paráfrase bíblica, transpondo a história do herói judeu para a época do nazismo, existe um plano que é uma das coisas mais extraordinárias que já vi. Soldados alemães e seus colaboradores poloneses fazem uma cerca de madeira para confinar os judeus. Na tela, as madeiras sobrepostas formam uma cruz. Simples assim, mas a idéia é coisa de louco. Wajda está discutindo a responsabilidade católica – e a igreja sempre foi decisiva em seu país – no massacre de judeus pelos nazistas.
Outro parágrafo (isso vai acabar virando regra!). ‘Terra Prometida’ tem algumas das imagens mais belas – visualmente – do cinema de Wajda. Mas o filme também é duro como aço. A comparação, acho eu, procede. “Terra Prometida’ baseia-se no romance de Wladislaw Stanislaw Reymond, de 1899, sobre o nascimento do centro industrial de Lodz. Na obra do autor, seguiu-se uma série em quatro volumes, ‘Os Camponeses’, que foi decisiva para que ele ganhasse o Nobel, sobre a exclusão social do povo da roça – e do proletariado urbano – face ao avanço do capitalismo. O mundo ficou tão porco que muita gente só reconhece a divisão radical capitalismo/comunismo e, para ser contra o segundo, são capazes de defender todo o excesso do primeiro, com sua carga de injustiça e exclusão. Tem de existir uma terceira via que resgate o bom e velho (obsoleto, em tempos de globalização?) humanismo. Wajda podia ser crítico do comunismo, mas também nunca foi lacaio dos comunistas. Seu filme conta a história de três jovens que querem fundar uma fábrica têxtil, um judeu, um polonês e um alemão. São diferentes, e o quer os une é a ganância. O polonês é interpretado pelo ator fetiche do grande diretor, na época, Daniel Olbryschki (a produção é de 1975). Wajda foi criticado por causa da descrição caricatural que ele faz da minoria judaica de Lodz. Seria ‘antissemita’. Se fosse, estaria indo contra sua visão em ‘Sansão’, mas na verdade todos os detentores do poder, no filme, são caracterizados da mesma maneira e o judeu não é mais penalizado do que o alemão ou o polonês. Pegando carona em Stanislaw Reymond, Wajda poderia ter feito, quem sabe, um novo ‘Os Companheiros’, de Mario Monicelli, mas ele preferiu construir um outro ‘Os Deuses Malditos’, de Luchino Visconti. Um crítico polonês (quem?) chegou a dizer que ‘Terra Prometida’ recorda o estilo de Visconti em ‘Gotterdamerung/La Caduta degli Dei’ pelo ‘estupendo e perverso barroco cinematográfico’, tocado pelo sentido da tragédia. O filme terá nova exibição na semana que vem. Espero estar de volta a São Paulo para (re)vê-lo. O desfecho é poderoso. Os ricos celebram seu triunfo, por meio de um batizado (Wajda antecipou Coppola, ‘O Poderoso Chefão’?). Uma pedra é lançada e cai no meio do salão, prenúncio das guerras sociais que estão por vir. A terra é prometida, mas o final não é feliz. Wajda fez na sequência ‘O Homem de Mármore’, acho que ‘Sem Anestesia’ e ‘O Maestro’ – não me lembro se a ordem, rigorosamente, é esta -, até chegar a ‘O Homem de Ferro’. Jane Fonda tinha razão. O sr. Política.