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Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2007 | 10h10

Preparem-se, pois este post vai ser longo. Cheguei no jornal cedinho e já recebi a visita de um emissário do embaixador da Itália no Brasil, que me enviou um catálogo do recente Festival de Veneza, acompanhado de uma nota simpática em agradecimento ao apoio dado pelo jornal ao ciclo Veneza Cinema Italiano III. Ainda nem abri o dito catálogo, porque junto veio outro e esse eu já folheei de cabo a raro umas duas vezes, lendo aqui e ali informações que foram me pegando. Esse catálogo, que motivou o post, refere-se à mostra realizada no Lido, no quadro do festival – ‘Storia Segreta del Cinema Italiano: Il Western all’Italiana’. Uma história secreta do cinema italiano – o spaghetti western! Sei que nunca foi de bom tom para crítico assistir a westerns italianos, exceto os de Sergio Leone, mas eu via! Em Porto Alegre, muitos daqueles filmes chegavam via Condor Filmes (e passavam no Vitória) ou então por outras distribuidoras (e iam para o Carlos Gomes). Com certeza eu preferia Ford, Hawks, Walsh, Peckinpah, Mann, Boetticher, Gordon Douglas, mas muitos spaghetti westerns fazem parte da minha memória afetiva – e eu tenho para mim que, embora Glauber Rocha certa vez tenha dito que Hawks foi sua referência em 1O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’, que é o western dele, tenho para mim que Glauber via mesmo era bangue-bangue spaghetti. Nunca me esqueço da imagem inicial de ‘Django’, de Sergio Corbucci, em que Franco Nero entra na cidadezinha puxando, pelo barro, aqueles caixões que vai rechear com os caras que veio matar. Da mesma forma, não esqueço o tema de Gianni Ferrio para ‘O Dólar Furado’, de Giorgio Ferroni, que se escondia por trás do pseudônimo Calvin Jackson Padget, como o astro Giuliano Gemma – que eu havia amado em ‘Os Filhos do Trovão’, de Duccio Tessari, ao lado de Jacqueline Sassard – era Montgomery Wood. O tema de ‘Il Dollaro Bucato’ ganhou uma versão nacional, que não me lembro mais quem cantava – ‘Se tu não fosses linda como és…” A revisão do western italiano no Lido resgatou Ferdinando Baldi (‘Preparati la Bara!’, com Terence Hill), Enzo Barboni (‘Lo Chiamavano Trinità’, também com Terence Hill), Mario Bava (‘Ringo del Nebraska’, com Ken Clark), Tinto Brass (‘Yankee’, com Philippe Leroy e Adolfo Celi), Giorgi Capitani (‘Ognuno per Sé’, com Van Heflin), Enzo G. Castellari (‘Keoma’, com Franco Nero), Sergio Corbucci (‘Navajo Joe’, com Burt Reynolds, e ‘Vamos a Matar, Compañeros’, com Franco Nero e Tomas Milian), Alberto De Martino (‘100.000 Dollari per Ringo’, com Richard Harrison), Riccardo Freda (‘La Morte non Conta i Dollari’, com Mark Damon), Lucio Fulci (‘I Quattro dell’ Apocalipse’, com Fabio Testi e Tomas Milian), Franco Giraldi (‘Sugar Colt’, com Hunt Powers), o japonês Iichi Kudo (‘Gonin no Shokin Kasegi’/’The Fort of Death’, com Tomisaburo Wakayama), Carlo Lizzani (‘Un Fiume di Dollari’, com Tomas Hunter), Giulio Petroni (‘Tepepa’, com Tomas Milian e Orson Welles), Giulio Questi (Se Swei Vivo Spara, com Tomas Milian), Sergio Sollima (‘La Resa dei Conti’, com Lee Van Cleef e Tomas Milian), Duccio Tessari (‘Il Ritorno di Ringo’, com Montgomery Wood), Tonino Valerii (‘Una Ragione per Vivere e una per Morire’, com James Coburn, Telly Savalas e Bud Spencer). Confesso que, se estivesse no Lido, eu tentaria ver o maior número possível desses filmes. A capa do catálogo mostra Tomas Milian, ator de origem cubana que filmou com Visconti (‘O Trabalho’, episódio de ‘Boccaccio 70’), Bolognini (‘A Longa Noite de Loucuras’ e ‘O Belo Antônio’), Pasolini (‘La Ricotta’, episódio de ‘RoGoPaG’), Francesco Maselli (‘Os Indiferentes’) etc. Só agora me dou conta de quantos spaghetti westerns ele fez. Seu nome era o que mais aparecia na retrospectiva de Veneza. Em compensação, não encontrei um título com Anthony Steffen, Antonio de Teffè, o brasileiro que também virou astro em Cinecittà empunhando a pistola (e mereceu uma recente biografia que ainda não li – mas vou ler).