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Luiz Carlos Merten

01 Março 2007 | 16h48

Diminuí meu ritmo nos últimos dois dias em função da cirurgia que não houve, mas estou querendo publicar um post desde que Ennio Morricone ganhou seu Oscar especial, na madrugada de segunda-feira. O nome de Morricone é indesligável do de Sergio Leone e os dois, em geral, são lembrados como os caras que deram ao spaghetti western sua carta de nobreza. O western, segundo Leone & Morricone, é sempre operístico. Gostava dos filmes deles, mas confesso que sempre os achei muito pretensiosos, com toda aquela elaboração audiovisual. O meu preferido é Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo (Três Homens em Conflito), que tem aquela trilha genial, incluindo The Ecstasy of Gold, que me parece uma coisa de louco. Vi o filme há mais de 40 anos, não o comprei em DVD, mas me lembro daquela música, que ainda toca em meus ouvidos. Meus spaghetti westerns favoritos eram outros – Quien Sabe?, do Damiano Damiani, lançado no Brasil como Gringo, com música do Bacalov (mas acho que o Morricone tinha um pezinho ali). Quien Sabe? era o próprio Maio de 68 no western macarrônico, discutindo a revolução, com a participação de ícones da época, como Gian-Maria Volontè e Lou Castel. Adorava o filme, mas nunca mais vi e não sei se foi um arroubo juvenil, em pleno ardor revolucionário. Aliás, acho que a retrospectiva do cinema italiano na Mostra do ano passado ficou devendo esses filmes mais populares. Mas eu também me impressioneI, na mesma época, com Requiescant, do Carlo Lizzani, lançado no Brasil como Réquiem para Matar, que tinha até uma participação do Pasolini, e achava bizarro aquele início do Django, de Sergio Corbucci, em que Franco Nero adentrava pela cidadezinha puxando todos aqueles caixões através do barro. Me pergunto como seria rever,. hoje, todos esses filmes. Eram tão pré-‘pós-modernos’, trabalhando com simulacros e códigos de gênero. Leone virou um clássico, mas e os outros? É curioso que, simultaneamente, Sam Peckinpah e outros diretores também dionamitavam as convenções do western e o faziam cada vez mais violento, como espelho da realidade da época, marcada pela Guerra do Vietnã que a TV colocava nas salas de jantar (e estar) de todo o mundo. Os mestres estavam se aposentando ou até já haviam parado. O mundo e o cinema haviam mudado e o spaghetti western, independentemente de qualidade, pertencia tanto àquele tempo quanto a pílula, a minissérie ou os Beatles. A música sempre foi importante no western. Se penso em Johnny Guitar, me vem a Joan crawford de branco, naquele piano, e o tema do victor Young. Se penso em Da Terra Nascem os Homens, do Wyler, Jerome Moross continua fornecendo o fundo musical. E Sete Homens e Um Destino, de John Sturges, remake de Os Sete Samurais, de Kurosawa, com aquela música vibrante do Elmer Bernstein. Acho que, na realidade, o que Leone e Morricone fizeram foi absorver Sturges e Bernstein, transpondo para as planícies da Espanha (para baratear custos) aquelas sagas do Velho Oeste, tão fantasiosas, a despeito do seu realismo muitas vezes brutal, como as de Karl May, quando criou, também de uma perspectiva européia, Mão de Ferro e Winnetou. O problema é que o western de May fazia parte da idealização da conquista do Oeste; o dos spaghetti westerns desenvolveu-se à sombra da destruição dos mitos. E a música, sempre a música. Ela era parte do fascínio do spaghetti western, mesmo antes de Leone (& Morricone). O primeiro filme do gênero que estourou no Brasil foi O Dólar Furado, com Giuliano Gemma, escondido por trás do pseudônimo de Montgomery Wood, e que também já tinha uma música sinfônica, incluindo a canção que teve versão brasileira (Se tudo não fosses minha/como és…). Tudo isso me veio com o Morricone no palco do Kodak Theatre, agradecendo seu Oscar especial em italiano. Viajei!

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