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Sortilégios de Richard Quine

Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2008 | 00h13

Rodolfo acaba de descobrir ‘Bell, Book and Candle’, um Richard Quine de 1958 e está encantado com a comédia que reúne a dupla do clássico ‘Vertigo’ (Um Corpo Que Cai) – James Stewart e Kim Novak -, mais Jack Lemmon e Elsa Lanchester. ‘Bell, Book and Candle’ chamou-se, no Brasil, ‘Sortilégio de Amor’ e dispõe de excelente reputação. Jean Tulard, em seu ‘Dicionário de Cinema’, diz que Quine foi o grande mestre da comédia da Columbia e atribui ao filme a definição de ‘sublime’, acrescentando que se trata de uma charmosa história de bruxaria. Salvo engano, acho que é a primeira vez que falo em Richard Quine aqui no blog. Príncipe da comédia, ele foi o mestre de Blake Edwards, que começou como roteirista, escrevendo vários filmes para ele, incluindo ‘Aconteceu num Apartamento’ (The Notorious Landlady), com Kim Novak e Jack Lemmon, que tem uma das perseguições finais mais hilariantes da história de Hollywood. Talvez esteja cometendo alguma injustiça contra o pobre Quine, mas até onde sei este antigo ator não resistiu ao rompimento de Kim Novak, seu grande amor, e entrou em depressão profunda. Penso até que ele se matou, o que parece um contra-senso, considerando-se que foi um comediógrafo elegante e, muitas vezes, refinado. Além das duas comédias citadas com Kim Novak, ele a dirigiu também num belo melodrama, ‘O Nono Mandamento’, no qual Kim e Kirk Douglas fazem um casal adúltero. O velho Kirk, pai de Michael Douglas, sempre teve aquela covinha no queixo e Kim perguntava como ele fazia para se barbear. Era divertido, mas acho que, até mais do que a crítica do sonho americano, o que me impressionou, no começo dos anos 60, quando eu ainda achava que seria arquiteto, foi justamente o uso que Quine faz do cenário, uma casa à Frank Lloyd Wright que o personagem de Douglas está construindo. Pouco antes, Alfred Hitchcock filmara aquela casa espetacular em ‘Intriga Internacional’ e, anos mais tarde, Clint Eastwood usaria uma casa de vidro (em ‘Interlúdio de Amor’/Breezy) e Elia Kazan outra casa inacabada, sem teto (em ‘O Último Magnata’), para que ambos pudessem refletir sobre os problemas afetivos do casal moderno. Isso já estava em ‘O Nono Mandamento’. Sugiro que o Rodolfo tente ver outros filmes do diretor que também costumam ser bem apreciados, tipo ‘Quando Paris Alucina’, com William Holden e Audrey Hepburn; ‘Como Matar Sua Esposa’, com Jack Lemmon e Virna Lisi; e o meu favorito, ‘Médica, Bonita e Solteira’ (Sex and the Single Girl), deliciosa comédia em que Natalie Wood faz uma psicanalista psicanalisada pelo paciente sedutor (Tony Curtis). Escrevo essas linhas e penso que o ex de Kim Novak tinha, afinal de contas, aquilo que os franceses chamam de ‘mauvaise étoile’. Má estrela ou má sorte, Quine parece ter chegado muito tarde em Hollywood, virando uma espécie de ‘displaced person’. Ele pegou o finalzinho do musical, tentou uma fase de comédias à Frank Capra quando este já estava sendo colocado em xeque. Pode ser que exagere, mas, tendo sofrido de depressão, parece ter tido uma vida miserável para um diretor de comédias e também não teve reconhecimento à altura do seu talento. existem, porém, os que o amam incondicionalmente. Tavernier e Coursodon, nos seus ’50 Ans de Cinéma Américain’, colocam Quine nas nuvens e elogiam ‘Jejum de Amor’ (My Sister Eileen), de 1955, como obra-prima (e um dos últimos grandes musicais). Para concluir, não posso esquecer que Quine pegou um best seller de Arthur Hailey, o autor de ‘Aeroporto’, e fez de ‘Hotel de Luxo’ um estudo brilhante sobre o capitalismo em ação, concentrado praticamente no cenário único do título, onde convivem o ladrão, a prostituta, o empresário empreendedor, o agiota, os aristocratas falidos, os empregados que disputam seus direitos etc. Sexo, dinheiro e luta de classes – taí um desses autores ditos ‘menores’ mas que de pequenos não tinham nada, justificando o culto de meia-dúzia de connaisseurs.