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Cultura » Sophia Loren e Anna Magnani

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Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2008 | 14h00

Régis comenta o post sobre Anna Magnani e lança sua interrogação – Sophia Loren não teria sido trabalhada para ser uma nova Magnani? Sophia era mais bela, mas com certeza seu temperamento ardente, criando personagens do povo, pode ter um pé no mito da Magnani. A verdade, porém, é que se tu, Régis, fores investigar as opiniões da crítica da época, Sophia era considerada a sucessora de Silvana Mangano – um mulherão em ‘Arroz Amargo’, de Giuseppe De Santis -, mantendo uma disputa com Gina Lollobrigida que durou boa parte dos anos 50 (e que pode ser comparada à rixa Marlene/Emilinha nos tempos da Rádio Nacional). Engraçado é que revi no sábado ‘Tentação Morena’ na TV paga e fiquei pensando comigo que, mesmo a mais banal comédia romântica por volta de 1960, fazia observações mais interessantes sobre as personagens (e a esfera social). Foi meu primeiro pensamento, mas depois fiquei matutando – será que as comédias bobas de hoje não oferecerão o mesmo background para os analistas de amanhã? Afinal, foi Jean-Luc Godard quem disse que todo filme, mesmo de ficção, traz sempre embutido um documentário sobre a época em que foi feito. De qualquer maneira, gostei de ver ‘Tentação Morena’ e adorei uma cena – aquela em que a ‘doméstica’ Sophia vai à festa com o patrão (Cary Grant) e sai dançando de bolsa no ombro. Sempre achei que a idéia era uma invenção de John Huston para definir a cafonice da personagem de sua filha Anjelica em ‘A Honra do Poderoso Prizzi’, mas não. Quem criou, mas a sério, foi o Melville Shavelson, na primeira de suas duas comédias com Sophia (ele fez depois ‘Aconteceu em Nápoles’, também com Clark Gable). Ainda sobre Sophia e Anna Magnani, é um fato que Anna seria a mãe estuprada e Sophia, a sua filha em ‘Duas Mulheres’. Pelo menos era assim quando Vittorio de Sica começou a planejar o filme. Só depois, surgiu a idéia de Sophia interpretar a mãe (e, embora ela fosse muito nova para o papel, ganhou todos aqueles prêmios: melhor atriz em Cannes, o Oscar, o Nastro D’Argento…) Até onde sei, ‘A Rosa Tatuada’ não saiu em DVD, nem ‘A Orquídea Negra’, que é um mau Martin Ritt, numa fase em que ele andava à deriva em Hollywood, antes de se encontrar com ‘O Espião Que Saiu do Frio’, adaptado do romance de John Le Carré, com Richard Burton e minha querida Claire Bloom. Misturando as coisas, acrescento que nunca vi, também, ‘A Fúria da Carne’ em DVD, mas o filme que Sophia fez com o diretor George Cukor, depois de ser levada para Hollywood, na trilha aberta pelo sucesso da Magnani, saiu em disco digital da Paramount e estava outro dia à venda nas Americanas, bem baratinho (acho que por R$ 14,90). Posso ser o único, mas adoro ‘Jogadora Infernal’, em que Sophia integra uma caravana, meio ‘A Carruagem de Ouro’, no Velho Oeste, com direito a ataque dos índios e a Anthony Quinn na pele de pistoleiro.