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Sonho com meu ‘velho’ Tarzan

Luiz Carlos Merten

21 Março 2015 | 13h12

Já contei aqui como Tarzan foi minha primeira leitura. Amava os livros de Edgar Rice Burroughs e sempre lamentei que Hollywood, ao filmar as aventuras do rei da selva, tenha mantido sempre a fantasia em limites apenas razoáveis. Nos livros, Tarzan viaja ao centro da Terra, encontra uma divisão perdida do Império Romano e remanescentes das cruzadas que formaram uma cidade nos moldes de Camelot etc. É verdade que tudo isso estava ligado a um tempo em que a África ainda era distante e misteriosa, não estava conectada às redes sociais e evocava um mundo primitivo. . Mas eu sempre amei Tarzan – os livros e alguns filmes, os melhores. Tarzan, o Filho das Selvas, o primeiro falado, em que W.S. Van Dyke antecipou King Kong, na cena em que o herói salva Jane de um gorila monstruoso, A Fuga de Tarzan, O Filho de Tarzan, O Tesouro de Tarzan – esse, acusado de racista, porque Tarzan adota um órfão negro que some no filme seguinte -, Tarzan Contra o Mundo, todos de Richard Thorpe, e também A Maior Aventura de Tarzan, de John Guillermin, em que o jovem Sean Connery faz o vilão e a deslumbrante Scilla Gabel mostra que só não virou uma (outra?) Sophia Loren porque não teve um Carlo Ponti nem um Vittorio De Sica em sua vida. Por que estou tirando Tarzan do baú? Fui agora à Livraria Cultura da Paulista para comprar um livro (é presente) e tive na mão a nova edição das obras de Edgar Rice Burroughs. Em busca do tempo perdido (será?), fui a muitos sebos de São Paulo em busca dos velhos livros da min há infância e também de A Fonte, de Charles Morgan, minha porta de entrada para a filosofia platônica, que li quando (muito) jovem. Nunca os encontrei. Fiquei feliz quando soube da reedição. Comprei correndo o primeiro volume. Bela edição, bom papel, ilustrações lindas, tudo nos trinques, mas detestei. Tarzan entrou para a academia, cheio de notas de rodapé, sem o menor sentido, que tratam o leitor como débil mental. Meu velho Tarzan prescindia de tudo isso e eu nunca deixei de entendê-lo, e numa leitura mais fluida. Misturando um pouco as coisas, recebi, com atraso, o número de dezembro da revista Teorema. Um monte de gente que respeito e admiro (Enéas de Souza, Enéas de Souza, Enéas de Souza), mas não consigo ler. Todo mundo que escreve ali é doutor em alguma coisa. No mínimo, pós-graduado. Parece que querem nos convencer de que, com isso, sua visão é a definitiva dos filmes. Tão presunçoso e, no fundo, provinciano. Transfuge, Cahiers, Positif, Cinemascope, Film Comment devem ter seus doutores, mas não fazem disso um cavalo de batalha. Ninguém é identificado pelo PhD. No máximo, quando não pertencem ao corpo de colaboradores, merecem alguma indicação de livros publicados. Cristo e os doutores (da lei). Na Bíblia, são enquadrados e reduzidos à sua insignificância. Só para fechar, retomo Tarzan. O último grande Tarzan da tela foi Christophe(r) Lambert, no Hugh Hudson. Greystoke, a Lenda de Tarzan, o Rei da Selva, com a cena sublime em que o agora lorde reencontra enjaulado seu pai macaco, despe-se do manto da civilização e fala com ele como bicho. Hudson emparelha ali com o ‘meu’ François Truffaut, O Garoto Selvagem. Instinto versus cultura repressora. Confesso que sonho com o Tarzan de David Yates, prometido para o ano que vem, com Alexander Skarsgard.