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Luiz Carlos Merten

09 Julho 2011 | 20h58

Não, não é um post sobre Bernardo Bertolucci, mas poderia ser. Quantas vezes já vi ‘O Pagamento’, Paycheck, de John Woo, com Ben Affleck e Uma Thurman? Só nos últimos dias devem ter sido umas três ou quatro vezes, porque o filme vive passando na TV paga. Vocês não imaginam o prazer que o filme me proporciona.Adoro a engenhosidade da história, a forma como Affleck, sabendo que sua memória será apagada, envia uma série de itens para si mesmo, no futuro. Cada um deles deflagra um mecanismo da memória, permitindo-lhe driblar a própria morte e fazer avançar a narrativa. É Alain Resnais digerido por Hollywood e devolvido na forma de um thriller executado com mão de virtuose. Mais surpreendente, mesmo para quem já me conhece, talvez seja outro filme que tazmbém não me canso de (re)ver e, na verdade, (re)vi hoje, ‘Sonhadora’. A personagem título é a égua de Dakota Fanning, que fratura a pata e é salva de ser sacrificada pelo pai da garota, Kurt Russell. O cinema contou muitas histórias de cavalos perdedores que, no limite, conseguem superar-se e arrancar a vitória  em circunstâncias adversas. Mais do que a história da égua, e da menina, é a história da família que se constrói em torno dessa relação.  Numa cena, o garoto chicano que será o jóquei de Sonhadora conta um sonho que,na verdade, é um pesadelo. Refere-se ao seu medo de perder (a vida), mas a menina não cede e empurra todo mundo, a égua principalmente, à vitória. O cinema é uma coisa maravilhosa. Simples? Complexo? O que é um, o que é outro? Numa cena decisiva, Kuret Russell ‘dialçoga’ com Sonhadora. O plano é muito bonito, o olho do homem e o olho do animal. Não é preciso mais do que isso para criar emoção ou intensidade, mas, claro, um e outro estão nos olhos de quem vê. Dakota recita um poema para sua égua. O solo vai tremer, o céu vai se abrir. Talvez seja uma viagem muito pessoal, só minha, mas o que me atrai em ‘Sonhadora’ é o que me faz amar um velho filme de Mark Rydell coim Steve McQueen, ‘The Reivers’, lançado no Brasil como ‘Os Rebeldes’, de 1969. É uma adaptação de William Faulkner, sobre trio – um garoto e dois adultos, um branco e outro negro – que vive movimentadas aventuras no racista Sul dos EUA, no começo do século passado, a bordo de um carro flamante (nos primórdios do automolbilismo). Eles vão se enredando com prostitutas e apostadores e a trama evolui para o momento em  que participam de uma corrida de cavalos para recuperar a posse do carro. É um momento mágico. O menino descreve a sensação de voar no lombo do animal, o plano é onírico, como se o espectador voasse junto, mas a voz é de um adulto, o ator Burgess Meredith, porque o relato de Faulkner é sobre um velho que nunca se esqueceu daquela experiência. ‘Sonhadora’ me passa um pouco desse mistério. É assinado por um tal de John Gatins. Não vi o filme nos cinemas nem sei se foi lançado em salas brasileiras. Na TV, não me canso de (re)ver. É como a cena de Ben Affleck e Uma Thurman naquela passarela, quando eles sabem, ou acham que vão morrer. Ela pergunta se ele não acredita em segunda chance, se vai desistir. Ambos ficam no fogo cruzadfo de dois astiradores, desviam-se das balas e quem morre é o vilão Aaron Eckhardt. Grande John Woo. É a mesma magia de Sonhadora correndo por fora e chegando até a linha de frente para derrotar o favorito. Diante dessas emoções, espero chegar aos 80 anos mantendo minha alma de menino.