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Cultura » Somos todos assassinos?

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Luiz Carlos Merten

13 Julho 2007 | 13h47

Lançamento da Aurora – cujo destino atual eu desconheço, já que perdi o contato de Ernesto Barros, que fazia (faz?) a seleção de títulos da empresa sediada originalmente no Recife –, Somos Todos Assassinos merece hoje um texto de rodapé de Rodrigo Fonseca, no Globo. Realizado em 1952, o longa ganhou um prêmio no Festival de Cannes, numa época em que ainda não existia a Palma de Ouro e o Grand Prix costumava ser compartilhado. Naquele ano, foi dividido entre Due Soldi di Esperanza, de Renato Castellani, vinculado ao neo-realismo, e o Othello de Orson Welles, que concorria por um país africano (acho que o Marrocos). O filme ganhou o prêmio especial do júri, um dos muitos que André Cayatte recebeu nos anos 40 e 50. Figura curiosa, a deste Cayatte. Sempre tive curiosidade de saber – e agradeceria se vocês me fizessem a gentileza de pesquisar – qual o júri maluco que, em 1960, deu o Leão de Ouro de Veneza a outro filme de Cayatte (A Passagem do Reno), atribuindo a Visconti (Rocco e Seus Irmãos!) só um prêmio especial, claramente de consolação. Gente doida! Enfim, Cayatte era um advogado que se tornou cineasta e Truffaut ironizava dizendo que, se o pessoal da toga o tomava por diretor, o povo do cinema nunca teve dúvida de que ele era advogado. Truffaut estava certo. Cayatte nunca foi um verdadeiro cineasta – e fez sei lá quantos filmes para prová-lo –, mas era obcecado pela seriedade, usando o cinema para discutir questões éticas que assolavam a sociedade francesa da época. É curioso que, em O Direito de Matar, de 1950, ele tenha se antecipado ao Sidney Lumet de Doze Homens e Uma Sentença, questionando a instituição do júri, e dois anos depois tenha feito Somos Todos Assassinos, seu requistório contra a pena de morte. O título deixa claro o partido de Cayatte – se somos todos assassinos, que direito temos de condenar alguém à morte? O filme conta a história desse sujeito, um analfabeto, que ganha uma arma para enfrentar os nazistas e depois não pára mais de matar. Tem algo a ver com o poderoso Chacal de Nahueltoro, de Miguel Littín, que poderá ser visto no próximo Festival de Cinema Latino-Americano, no Memorial. É o tipo do tema que permanece forte (e polêmico) hoje, como há quase 50 anos. Acabo de ler o livro da Ruth Rendell Um Assassino entre Nós, que Chabrol filmou como La Cérémonie (e passou no Brasil como Mulheres Diábolicas) sobre uma analfabeta que mata a tiros de espingarda uma família inteira. Um Assassino, cujo título original é A Judgement in Stone, é de 1954. Quatro anos depois, Robert Wise fez Quero Viver!, com Susan Hayward, que está à venda em DVD. Vieram depois À Sangue-Frio, de Richard Brooks, adaptado de Truman Capote, e, mais recentemente, Não Matarás, de Krzystof Kieslowski, e Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, todos tratando da legitimidade (ou não) da pena de morte como instrumento de Justiça social. Filósofos como Michel Foucault, em Vigiar e Punir, já trataram do assunto e ele não deixa de estar no centro de Estação Carandiru, de Drauzio Varella; de Carandiru – O Filme, de Hector Babenco; e de Salmo 91, a peça de Dib Carneiro Neto em cartaz (de hoje a domingo) no Sesc Santana, como observa o crítico de teatro Jefferson Del Rios, hoje no Caderno 2. Não gosto dos filmes de Cayatte, salvo, talvez, das duas partes de A Vida Conjugal (Confissões de Um Homem Casdado e A Vida de Uma Mulher Casada) e Morrer de Amor, no qual Annie Girardot está particularmente emocionante, como professora acusada de envolvimento com aluno. Mas, como já escrevi aqui, Jean Tulard às vezes acerta em seu Dicionário de Cinema. Ele diz que, na falta de satisfazer o cinéfilo, a obra do diretor deixa ao historiador de amanhã um testemunho sobre a sociedade francesa da IV e da V Repúblicas. Ah, sim. Em 1958, Cayatte fez O Espelho tem Duas Faces, , com Michèle Morgan, para discutir as cirurgias plásticas. Quase 40 anos depois, em 1996, Barbra Streisand refez o filme, e com o mesmo título. Num certo sentido, é hilariante. Barbra faz uma feiosa que, depois da plástica, fica bonita. Ela interpreta os dois papéis com a mesma cara, o mesmo estilo de representação. O que muda é o figurino e a iluminação. Bem iluminada e vestida, Barbra fica ‘linda’ (e Jeff Bridges se atira a seus pés). O remake poderia ter originado um terceiro filme, do próprio Cayatte, para discutir as implicações éticas e estéticas, contidas na evidente mistificação, se ele não tivesse morrido em 1989.

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