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Cultura » Natalie Portman, zumbi?

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Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2008 | 09h48

Não sou o maior leitor do ‘Almanaque’ de Maria Rosário Caetano, que ela distribui via e-mail. A própria Rosário sabe disso e quando publica alguma coisa que quer que eu saiba (ou leia), ela envia recados por meio de amigos comuns. Enfim, ontem precisei procurar algumas informações que me tinham chegado por correio eletrônico e, ao rastreá-las, topei com várias edições do ‘Almanaque’ que estavam paradas na minha caixa postal lotada (para variar). Abri uma, ao azar, e não vou resistir a contestar o que diz a Rosário. Ela não gostou nem um pouco de ‘Sombras de Goya’, que vocês sabem que eu amo. Até aí, tudo bem, vários de vocês aqui no blog também não gostaram ( e eu, sem provocação, lamento – por vocês, não pelo filme). Mas a Rosário cai matando na personagem de Natalie Portman. Ela acha difícil acreditar que aquele roteiro tenha sido escrito por Jean-Claude Carrière – eu, não. Acho muito interessante aquela ruptura de 15 anos, que não é só uma licença narrativa para expressar o tema da ambivalência radical do ser humano (os personagens voltam mudados, menos o próprio Goya), mas é algo mais. Rosário diz que Natalie parece um zumbi. Digamos que seja esta a intenção. Ela vira um ‘fantasma’ do Goya (fiel ao título original, ‘Ghosts of Goya’, que é melhor do que o brasileiro ‘Sombras’) e o genial é isso. Num trabalho brilhante em conjunto com o maquiador – e a atriz, claro -, Milos Forman fez dela uma daquelas figuras deformadas que aparecem nos quadros finais, da série ‘Desastres da Guerra’. Ou seja, a minha leitura vai na contramão da da Rosário (a dela vai na contramão da minha). Não quero nem sugerir que eu esteja certo e ela, errada. Da mesma forma, não creio que o inglês prejudique o filme. Até compreendo quando, conceitual – ou politicamente -, se defende (e eu defendo, às vezes) a resistência à dominação do inglês, mas acho que o Forman, um checo que viveu (vive parcialmente, hoje está mais radicado em Paris, segundo ouço) nos EUA, sai-se muito bem no compromisso de fazer um filme falado em inglês. A maneira como ele usa os sotaques e como, de vez em quando, acrescenta, como ‘caco’, o espanhol, rende uma musicalidade muito forte. O inglês prejudica em ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ porque lá é falado, meio macarrônico, por um elenco internacional que, obviamente, não domina o idioma. A crítica é conceitual, eu sei, política, talvez, mas eu me pergunto – em que língua Carrière escreveu o livro dele? Francês, inglês, espanhol?