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Cultura » Sombras de Buñuel em Toledo

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Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2008 | 08h52

MADRI – Tentei ontem postar alguma coisa, à noite, mas não consegui. Estava numa lan house e, nas duas tentativas, perdi o texto. Não me esqueci de vocês e até gostaria de estar compartilhando as experiências desta viagem à Espanha. No domingo à noite, em Paris, sinto desapontá-los, mas preferi ir jantar, ao invés de assistir a ‘Triangle’, com direção, entre outros, de Tsui Hark (e Johnny To). Estava morrendo de vontade de tomar (comer?) uma sopa de peixe, mas nem foi a fome que me impediu de ir ao cinema. Acontece que eu ainda estava sob o impacto de ‘Sweeney Todd’ e não quis misturar as coisas. Deixei ‘Triangle’ para a volta a Paris, após o Festival de Berlim, se bem que vai ser duro. Imaginem se vou querer perder ‘Zabriskie Point’ e ‘O Espírito da Colméia’ que estarão de volta aos cinemas, em cópias novas? Em Madri, já assisti a dois filmes. Na terça à noite, ‘El Orfanato’, de J.A. Bayona, produzido por Guillermo del Toro (que filma, na Hungria, a seqüência de ‘Hellboy’). Achei o filme bem legal. Uma mãe, Belén Rueda, mora neste antigo orfanato freqüentado pelos fantasmas de crianças que foram assassinadas. Ela tenta recuperar, de entre os mortos, o filho que desapareceu. O marido, a polícia, todos pensam que está louca. O filme tem o clima de… Como é mesmo o título do filme de Alejandro Amenábar com Nicole Kidman, ‘Os Mortos’? Ontem à noite voltei ao cinema para ver ‘Los Crimenes de Oxford’, de Alex de la Iglesia, com Elijah Wood e John Hurt, que retoma a linha de ‘Crime Ferpeito’, do diretor. O filme começa com uma discussão acadêmica sobre a relatividade da verdade, por Wittgenstein, e prossegue com esta trama de múltiplos assassinatos para levantar uma tese polêmica – se não existe verdade absoluta, não existem também inocência nem culpa absolutas. Tudo se relativiza. Achei curioso, mas vi o filme dublado e o Elijah Wood dizendo, a toda hora, ‘cariño’, como fazem os espanhóis, foi dose. Ontem passei o dia em Toledo, cidade mágica (e mítica) em que Buñuel rodou um de meus filmes preferidos (entre todos os que ele fez) – ‘Tristana’, com Catherine Deneuve e Franco Nero. A cidade não tem horizonte. Só ruas curvas e estreitas que vão se fechando (trata-se de uma cidade medieval, cercada por muralhas, na sua parte antiga). Antes de entrar nesta parte antiga, a vista do morro e do Tajo (Tejo), que vai banhar Lisboa, é uma coisa espetacular. Toledo é chamada de Jerusalém da Espanha e o formato da cidade, incrustrada na montanha, lembra mesmo a cidade israelense, que conheci no ano passado. Mas o mais impressionante em Toledo é a catedral gótica. O que é aquilo? Dava para ficar dias intgeiros ali dentro, só olhando, e tentando decifrar, os detalhes. Em Toledo, estão os melhores exemplares da arte religiosa de El Greco, que os espanhóis chamam somente de ‘Greco’, mais ‘O Enterro do Conde de Orgaz’ e aquele Cristo do manto vermelho. Gente, vou precisar voltar a escrever sobre isto. Ao mesmo tempo que a catedral de Toledo representa a força civilizatória da igreja – e a busca de transcendência por parte dos homens -, chega-se a ela por meio de uma praça na qual a Inquisição fazia seu atos de fé e condenava ao martírio, na fogueira, os chamados ‘hereges’. As sombras de Goya estão à solta em Toledo, em cada curva do caminho. Agora, chega. Vou ao Museu Reina Sofia, embora já saiba – ó frustração – que Guernica está fechado e só será reaberto no dia 5, justamente quandio estarei partindo (de Barcelona) para Berlim.