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Luiz Carlos Merten

01 Julho 2009 | 12h10

Fui ver ontem ‘O Som e a Fúria’ no estúdio da Mega, em Higienópolis. Achei muito legal. Por força da minha convivência com amigos como Dib Carneiro Neto e Gabriel Vilela, tenho acompanhado de perto – e de dentro -– o processo de criação de teatro. Tenho ido, inclusive, muito mais ao teatro do que fui em toda a minha vida. Às vezes penso o que diria disso meu amigo Tuio Becker que, pelo fato de escrever sobre cinema, nunca deixou de acompanhar o movimento teatral de Porto. O especial de Fernando Meirelles versa sobre isso. Pedro Paulo Rangel faz um diretor de teatro que morre e cujo espírito assombra o também ator e diretor de teatro Felipe Camargo, que no passado pirou durante uma montagem de Rangel para o ‘Hamlet’ e agora dirige, ele próprio, uma nova versão da tragédia noturna do príncipe da Dinamarca, com um astro de TV (Daniel de Oliveira) no papel. Ao contrário do experimentalismo cênico de Luiz Fernando Carvalho – ‘Capitu’ –, Meirelles pretende ser mais direto. Ia dizer mais simples e direto, mas simples não é exatamente o termo, pois o segredo de ‘O Som e a Fúria’ consiste em propor complexidades, inclusive na discussão sobre a criação. Achei divertido o crítico se chamar ‘Bárbaro’ – qualquer aproximação com Bárbara Heliodora não é mera coincidência – e aquela divisão do ‘Hamlet’ em seis solilóquios, cujo novelo Daniel (no palco) e Felipe (na coxia) vão desenrolando conjuntamente. Elogiar Daniel de Oliveira… E precisa? Em pouquíssimo tempo, e na TV e no cinema – nunca o vi no palco –, Daniel construiu para si uma reputação ‘sólida’. Ele é bom demais e não teme ir fundo em personagens como Cazuza ou o Santinho de ‘A Festa da Menina Morta’. Daniel talvez seja o recém chegado nessa geração de novos atores brasileiros que tem o Selton (Mello), Wagner (Moura), Lázaro (Ramos) e o João (Miguel). Bons para caralho, desculpem pelo palavrão. Aqui, Daniel dá um baile como o ator que a princípio sofre o preconceito que tantas vezes, e de forma às vezes injusta, estigmatiza astros de TV. Havia gente que também não acreditava no Thiago Lacerda em ‘Caqlígula’ e, no entanto, ele foi maravilhoso, dando conta da complexidade (física e verbal) de Camus. Adorei Andréa Beltrão, Maria Flor, Ary França, mas a surpresa para mim – e imagino que será para o público, quando ‘O Som e a Fúria’ for ao ar – foi o Felipe Camargo. Não me lembrava, sinceramente, como ele consegue ser bom, embora talvez esteja sendo injusto, porque Felipe já havia sido ótimo em ‘Filhos do Carnaval’. Eu, que sou um velho tolo – e romântico –, me emocionei com o Felipe naquela coxia, recitando os versos imortais, e quando ele, na euforia do trabalho bem realizado, rouba um beijo de sua ex (Andréa), na rápida visita ao camarim, após a apresentação. Felipe pode agradecer a Fernando Meirelles pelo presente do papel, mas o diretor também está em débito com seu ator. Felipe saiu melhor do que a encomenda, com certeza. ‘O Som e a Fúria’ vai ao ar na terça. Só ainda não entendi muito bem o formato. A versão que assisti, com 102 minutos, é uma condensação de seus episódios. Cada um tem uma hora, é isso? Nem vi Rodrigo Santoro, mas sei que ele participa. Está nos seis episódios, versão ampliada, ou em outra série? Volto ao assunto, mas, por enquanto, por favor, olho em ‘O Som e a Fúria’ (e no agora grande Felipe Camargo).

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