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Luiz Carlos Merten

01 Dezembro 2006 | 17h29

Na edição de amanhã do Caderno 2, Beatriz Coelho Silva, a Totó, nossa super-repórter da sucursal Rio do Estado, divulga dados inquietantes sobre o mercado de cinema no Brasil. Socorro!, como ela diz na abertura de seu texto. O cinema brasileiro está encolhendo. Põe encolhendo nisso – em 2006, os filmes brasileiros tiveram uma taxa de ocupação das salas 12% menor do que no ano passado. Em relação a 2004, segundo Filme B, que fez a pesquisa, a perda foi muito maior – 44%. Ou seja, em dois anos, o público do cinema brasileiro foi reduzido quase à metade. A renda também despencou 15% nestes dois anos, mesmo que o ingresso tenha sido aumentado em 15% sobre o de 2005. A situação teria sido muito mais alarmante se não tivesse havido, logo no primeiro semestre, o maior sucesso do ano – Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, com Glória Pires e Tony Ramos, com 3.644.618 espectadores. Houve somente mais um filme que ultrapassou a marca do milhão – Didi – O Caçador de Tesouros, com 1.011.719 espectadores. Os oito restantes na lista dos dez mais brasileiros varia de Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, com 767.785 espectadores, em terceiro, até O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, com 129.364 espectadores, em décimo. O próprio Daniel Filho, que tem outro filme na lista, ficou em nono, com Muito Gelo e Dois Dedos d’Água, com 198.406 espectadores. Na verdade, Muito Gelo é o décimo, pois O Ano, após a tabulação da pesquisa, fez mais 100 mil espectadores, o que o deixa com 230 mil, mais que os 207 mil de O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues, o oitavo na lista inicial de Filme B. E estes ainda são os campeões. A média é muito mais baixa, com uma quantidade muito grande de filmes com menos de 50 mil espectadores e até com menos de 10 mil (Veneno na Madrugada, de Ruy Guerra). O caso é muito complexo para se prestar a análiseas levianas, mas prova que o cinema brasileiro tem vivido de seus blockbusters. Sem 2 Filhos de Francisco, ou Carandiru, a realidade do mercado anda preocupante. Quantidade nem sempre rima com qualidade e não é menos preocupante que os melhores e mais ousados filmes produzidos no País andem sendo ignorados, ou sendo pouco vistos, pelo público. Por menor que tenha sido o lançamento de Cinema, Aspirinas e Urubus, o longa de Marcelo Gomes que o Brasil indicou para concorrer ao Oscar não ficou nem entre os dez. E foi um sucesso, fazendo mais de 100 mil espectadores com dez cópias (ou pouco mais)! As explicações são muitas, quando se fala em mercado – o ingresso é caro, o Brasil não tem salas populares, a concentração está nos shoppings, cujo público é predominantemente colonizado por Hollywood e quer mais é ver comédia romântica ou filme de ação do cinemão. Tudo isso é meia verdade, porque também há a contrapartida. Virou de tal maneira ofensivo dialogar com o público no cinema brasileiro – ultimamente, isso significa ‘concessão’ – que os autores, não sei, me parecem conformados e até contentes da fama de malditos. O sujeito faz uma miséria de público e fica feliz. A culpa é sempre do público, que não entendeu (e eu, pessoalmente, acho que às vezes, não há o que entender). Atiro isso como matéria de discussão, mas, principalmente, de reflexão. Independentemente de ser comercial ou artístico, o cinema brasileiro precisa existir. E não vai ser encolhendo no mercado que isso vai ocorrer.