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Cultura » Socorro! O que deu em Jean-Paul Belmondo?

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Luiz Carlos Merten

22 Janeiro 2009 | 09h25

PARIS – Fui rever na terça-feira à tarde, antes de ‘Morceaux de Conversations avec Jean-Luc Godard’, o clássico ‘Umberto D’, de Vittorio De Sica, na versão restaurada, cópia zero bala. A imagem do filme nunca me pareceu tão bonita, mas para que rever, você deve estar se perguntando? Afinal, em Paris, com tanta coisa nova – e antiga, que nunca vi -, parece perda de tempo investir num filme que já vi tantas vezes e até está disponível em DVD (que tenho). Mas não é a mesma coisa vê-lo em película, e no cinema. O que eu queria, de qualquer maneira, era outra coisa. Revi ‘Umberto D’ como preparativo para assistir, ontem, a ‘Un Homme et Son Chien’. O que deu em Jean-Paul Belmondo? O ator que deu uma cara aos primeiros filmes de Jean-Luc Godard e, depois, virou um grande astro na França ‘ousou’ refazer o clássico neo-realista de De Sica com o diretor Francis Huster, marido de Cristiana Reali (ela faz um papel). ‘Um Homem e Seu Cão’ foi planejado para marcar a rentrée de Belmondo, fora de cena há anos. Está sendo um fiasco. A sala, ontem, estava deserta. Éramos três pessoas, apenas. Mas o que deu em Bebel, como o chamam os franceses (repito a interrogação)? O filme é horrível. Francis Huster duplicou o número de personagens em cena e recorre a um palavreado sem fim, ali onde De Sica privilegiava o silêncio (e os olhares e pequenos gestos). Belmondo sempre foi feio, mas era um feio charmoso. Foi-se o charme e não sobrou nada, muito menos o talento. A cena final em que ele pede desculpas ao cão é de doer. Carlo Battista era tão ‘digno’ no filme de De Sica. Belmondo parece grande demais para ‘caber’ no personagem, que não entende. ‘Um Homem e Seu Cão’ é um desastre. E como tem música! Menos, por favor, menos. Belmondo poderia ter-se atirado sozinho da Torre Eiffel – se o que queria era o suicídio -, mas ele arrasta na queda figuras míticas como Françoise Fabian, a Maude de ‘Minha Noite com Ela’, e Micheline Presle, além da jovem Hafsia Harzi, de ‘O Segredo do Grão’. Apesar de tudo, gostei de ter visto ‘Um Homme et Son Chien’, mas, como dizia Fritz Lang, foi como uma súmula, que o filme oferece, do que não se deve fazer em cinema.