Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Socorro! Licença para Casar

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Socorro! Licença para Casar

Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2007 | 08h49

Quem me encontrasse ontem à noite ia dizer que eu estava transtornado e talvez até quisesse ajudar. Exagero, talvez, mas a verdade é que fui ver Licença para Casar e saí incomodado do cinema como nunca. Aliás, acho muita graça quando diretores dizem – como Carlos Gerbase sobre Sol de Prata no debate em Gramado e o Belmonte no debate sobre A Concepção em Brasília – que filmam para incomodar mesmo, como se fossem grandes revolucionários e a gente uns burgueses idiotas que precisam ser ‘sacudidos’. Devo ser de outras eras, mas meu modelo é a carta de Van Gogh ao irmão, dizendo que pintava para consolar, ou então a belíssima análise que John Wood faz da trilogia formada por Psicose, Os Pássaros e Marnie em Hitchcock’s Films. O cinema que libera, estética e moralmente, o filme como experiência transformadora do espectador. Mas, enfim, deixem-me voltar a Licença para Casar. Mandy Moore e John Krasinski formam o casal que, na abertura, parte em lua de mel. Quando ela vai atirar o buquê de noiva, a imagem pára e entra o reverendo Frank, isto é, Robin Williams, o padre mais enervante da história do cinema, para contar o que houve até aquele momento de felicidade. Padre Frank criou um curso para noivos, um método infalível para avaliar se o casal tem mesmo condições de se unir. E ele se reserva o direito de cancelar o casamento, se pressentir que não vai dar certo. Padre Frank inferniza a vida dos noivos, cria sistema de investigação e escuta para saber como estão agindo e não hesita em interferir sempre que julga necessário. Pode parecer tolo, apenas uma piada, mas o filme defende, ‘inocentemente’, a escuta eletrônica como recurso legítimo de aferição da verdade. Para testar o grau de ‘paternidade’ dos noivos, Padre Frank entrega à dupla dois bonecos medonhos, que parecem monstros e que agem como monstros, vomitando, escorrendo meleca do nariz, fazendo o cocô mais fedorento da Terra. Mas é tudo por uma boa causa. No fim, John Krasinski agradece ao padre por ter sido tão invasivo. Agora, ele sabe que vai dar tudo certo. Pode ser que eu exagere, mas, no começo, até que estava achando divertido, mas depois aquilo tudo foi me dando um mal-estar que a conclusão moralista somente acentuou. Robin Williams, na primeira cena, parece embalsamado. Dá para perceber que está maquiado (e mal maquiado). Em compensação, gostei da dupla Mandy Moore-John Krasinski. Ela é bonitona, ele é todo desengonçado, mas passa a idéia de tesão pela mulher (o padre insiste que eles parem com o sexo e se reservem para a lua de mel!). Fui procurar na internet e descobri que Krasinski fez a voz de Lancelot em Shrek 2 e integrava o batalhão de Soldado Anônimo, em que Sam Mendes usava a Guerra do Iraque de Bush pai para explicar a de Bush filho. Mandy Moore confesso que continuo sem saber direito quem é. Fui abrir o site dela e descobri que está on tour, apresentando-se amanhã em Atlanta e na sexta em Lake Buena Vista. Imagino que seja cantora e até o fim do mês a pobre canta todo dia na turnê interna nos EUA. Deve ser animada, a tal MM. Sair em turnê depois daquele filme horroroso… Eu ontem precisei de um bom jantar regado a vinho para me reconciliar com a vida. Ah, sim, o diretor é Ken Kwapis. O nome era conhecido, mas não me lembrava quem é. Fui ao Google. Descobri que Kwapis graduou-se com louvor na universidade de cinema (qual?) e escreveu uma tese sobre filmes, For Heaven’s Sake, que desenvolveu à maneira de uma ópera de Mozart (diz isso na internet; o que significa não faço a menor idéia). Ele também fez tal filme homenageando Lubitsch e outro em que cita Frank Borzage. Tudo tão chique, não é? Pensando bem – quem sabe eu não ‘entendi’? Não vejo de novo nem com revólver nas costas.