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Luiz Carlos Merten

29 Abril 2010 | 13h16

RECIFE – Eu às vezes perco a paciência comigo. Não sei como vocês me aguentam com minhas confusões. Troquei alhos por bugalhos, ou melhor, Paloma por Gabriela Duarte e só me dei conta – caiu a ficha – quando fui fazer o elogio público de Paloma, no debate sobre o filme de Oswaldo Montenegro, ‘Léo e Bia’, e vi que ela fez aquela cara quando citei ‘O Caso do Vestido’. Vamos por partes, em nome da exatidão. Gabriela Duarte é filha de Regina Duarte, fez a personagem chatíssima da novela de Manoel Carlos e foi premiada na Europa, acho que em Huelva, pelo filme que Paulo Thiago adaptou do poema de Carlos Drummond de Andrade, adotando a linguagem do melodrama. Paloma é filha de Débora Duarte e não é de hoje que é boa. Ela já fez ‘A Partilha’ e ‘Deus É Brasileiro’, mas excede como a Marina de ‘Léo e Bia’. Aproveito para dizer duas ou três palavras sobre o filme do cantor e compositor Oswaldo Montenegro. Estava no escuro, no Cine-Teatro Guararapes, quando um coleguinha veio se sentar ao meu lado, na maior patrulha. Perguntou-me se, em toda minha vida, já tinha visto coisa pior do que ‘Léo e Bia’? Não quis polemizar – em pleno filme! -, mas as reações foram mais ou menos essas. Achei bem interessante, na verdade, e até fiz uma pergunta ao Montenegro durante o debate, para colocar algumas aspas na minha materia de amanhã no ‘Caderno 2’, mas não fiz a essencial. Não que seja importante, mas me parece que ele, agora diretor de primeiríssima viagem,  repensa as relações entre teatro e cinema no formato de Louis Malle em ‘Tio Vânia erm Nova York’, que amo. O filme é baseado numa peça do próprio Montenegro e durante anos ele buscou a forma de fazer a transposição, ou transcodificação. Assim como shows e peças hoje incorporam vídeo e cinema,  ele pensou que o cinema poderia incoporar elementos cênicos.  O filme é sobre jovens que, em Brasília, nos anos 1970, enfrentam a censura do regime militar – regime civil/militar, como sustenta ‘Cidadão Boilesen’, implicando aquele jornal que aposta na memória curta do público com a repressão – para fazer um espetáculo musical. O tal espetáculo busca analogias entre Cristo e Lampião. Léo é o diretor da peça dentro do filme, é apaixonado por Bia, mas, ao contrário dele, que se bate contra a censura com o apoio da amiga ‘Marina’ (Paloma Duarte), Bia é vulnerável à pressão e à chantagem emocional da mãe repressora, o que condena o romance ao fracasso. O filme passa-se em boa parte do palco, sem recursos ‘realistas’. Tudo é estilizado, não existe, por exemplo, mobiliário nas cenas de Bia em casa com a mãe, apenas cordas que sugerem seu aprisionamento interior. Mas se isso coloca o filme num espaço simbólico, as interpretações são hiperrealistas e foram a grande aposta do diretor. Achei bastante ousado, e bem interessante, como já disse, até porque o elenco, com uma ou outra exceção, correspondeu. Mas, claro, é preciso vencer o preconceito de achar que Oswaldo Montenegro não é do ramo, ou não teria condições para fazer um filme inteligente. Feita essa primeira abordagem de ‘Léo e Bia’, sorry às duas ‘Duartes’, Gabriela e Paloma, pela confusão.