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Cultura » Socorro! Beowulf está chegando

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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2007 | 16h34

Comentando meu post de ontem sobre ‘Beowulf’, César Murilo Jaques me diz para não perder tempo com bobagem – no Rio Grande se diz ‘não perder pólvora com chimango’ – e falar sobre o que interessa a nós, cinéfilos. César Murilo me pede para falar mais sobre ‘A Estratégia da Aranha’, belo filme de Bertolucci que passa hoje à noite no Cine Bombril, integrando a programação da mostra Venezia Cinema Italiano 3. Já vou falar, cara, mas antes duas ou três palavrinhas sobre ‘Beowulf’. Aliás, uma só – é horroroso. Eu já havia achado ‘O Expresso Polar’ insuportável, mas Robert Zemeckis agora se superou. Não sei de onde esse sujeito tirou a idéia de que é legal fazer um filme com atores, usando a técnica de ‘motion capture’ – a captura dos movimentos – e depois transformar em animação digitalizada. Peter Jackson fez isso genialmente em ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘King Kong’, mas lá o recurso servia à criação de personagens como o Gollum e o macaco gigante. Zemeckis acha que o recurso, em si, já vale um filme e nem se preocupa com detalhes tão supérfluos (para ele) como uma boa história. Para agravar, ‘Beowulf’ foi produzido em terceira dimensão, o que faz com que a toda hora todo tipo de objeto seja lançado contra o espectador. Havia achado o recurso, embora velho, muito divertido quando vi outra animação, ‘Casa-Monstro’, e também a versão reastaurada do western ‘Caminhos Ásperos’ (Hondo), de John Farrow, na homenagem a John Wayne, durante o Festival de Cannes, em maio. Zemeckis e seus roteiristas deveriam ter visto o filme do pai de Mia Farrow para ter alguma idéia sobre como integrar os efeitos em 3-D a uma boa narrativa de ação. Embora baseado numa lenda anglo-saxônica, o filme não tem muito pé nem cabeça e os efeitos são deploráveis. Como não tinha olhado a ficha técnica, fiquei o filme inteiro tentando descobrir quem era a atriz que havia emprestado seu corpo à rainha e a infeliz fica estrábica, olhando não se sabe para onde, simplesmente porque Zemeckis, mesmo jurando que havia aperfeiçoado a captação do olhar – desastrosa no ‘Expresso Polar’ –, ainda não conseguiu acertar. Ao contrário da expressão no olhar do Gollum e do rei Kong, ninguém tem expressão em ‘Beowulf’. Em tempo, a atriz é Robin Wright Penn. Angelina Jolie, que faz a mãe do monstro que o herói Beowulf tem de eliminar, também olha não se sabe para onde, mas ela tem aquele bocão e pelo menos aparece nua (quer dizer, com aquele macacão elástico, coberto de tinta dourada, que sugere que ela está nua). Êta, filme horroroso. Deve entrar em centenas de salas, no Brasil inteiro, incluindo as cinco da rede Cinemak – duas em São Paulo, duas no Rio e uma em Florianópolis – aparelhadas para a exibição em 3-D. Já disse que não faz o menor sentido, mas pelo menos pode ser divertido (para as crianças) ficar vendo aquelas coisas todas voando na sala de cinema.