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Luiz Carlos Merten

10 Abril 2011 | 13h46

Olá, eis-me de volta depois de uns dias sem dar notícias. Na sexta fui ao Rio para visitar o set do novo filme de José Eduardo Belmonte, com Selton Melo e Grazi Massafera. Adorei o set, o filme promete – e é uma proposta ousada do diretor e da produtora Vânia Catani, vou voltar ao assunto –, mas a locação era no Alto da Gávea, atrasou e eu peguei o trânsito de fim de tarde no Rio, que anda, em certas áreas, pior que o de São Parlo. Tinha de passar na sucursal e redigir um texto para a edição de hoje (domingo) do ‘Caderno 2’. Havia deixado meus óculos em São Paulo, foi uma luta. Para tirar dinheiro no caixa eletrônico, tive de pedir ajuda. Socorro! Por tudo isso, perdi meu voo de volta e, como tinha fisioterapia cedo, no sábado, resolvi voltar de ônibus. A viagem, em si, foi tranquila. Dormi em ônibus, avião, trem, não importa o transporte. Na parada, a tal de Graal, fui comer alguma coisa. Talvez já não estivesse bem. O cheiro da comida me nauseou. Resolvi ficar nas frutas. O melão estava com gosto de azedo, o mamão, passado. Desde então, e agora já no segundo dia, ando pela hora da morte. Não diarreia, mas uma ânsia permanente de vômito e a sensação de que carrego uma pedra na barriga. Êta nois! Fragilizado, fui assistir ontem a ‘Amor?’ na sessão do Clube do Professor, no Frei Caneca, mas não tive como participar do debate com o diretor João Jardim. Foi pena porque do jeito como estava o filme me bateu forte. Tem coisas que adoraria comentar, principalmente nas interpretações de Lília Cabral, Sílvia Lourenço e Júlia Lemmertz. A Sílvia estava na sessão, Júlia eu encontrei no avião, indo para o Rio na sexta de manhã. O filme reconstitui, com atores e atrizes, depoimentos de pessoas que tiveram relacionamentos tortos, daí a interrogação – é amor? Gente que bateu e apanhou, agrediu e foi agredida. João filmou em planos sequências. No final, Júlia termina sua fala e ele não corta. A câmera continua filmando. Ela, ao mesmo tempo Júlia Lemmertz e a personagem, passa o desconforto de estar ali. Olha para o lado, para a câmera, treme o lábio. Júlia de alguma forma herdou a boca amarga de sua mãe, Lilian. Lembrei-me de Joseph Losey. No livro de entrevistas com Tom Milne, ele analisa o fim de ‘Estranho Acidente’. Não me lembro por quê, na cena em que Dirk Bogarde abre o portão e chama o cachorro, o bicho não veio e ele ficou com o portão aberto, olhando para a câmera. Era o último plano, porque a luz estava caindo e Losey fez sinal para que o ator continuasse. Depois, o diretor comenta que não tem nada mais difícil para um ator do que esse prolongamento, quando ele já está saindo da cena (e do personagem). Grande Júlia. À noite, fui à premiação do É Tudo Verdade, para fazer a matéria de encerramento do evento, na edição de amanhã. Nunca me havia acontecido isso – fiz entrevistas com diretores, assisti a filmes, não tantos quantos gostaria, mas pela primeira vez havia visto os vencedores das duas competições, a nacional e a estrangeira. Gostei muito de ‘Dois Tempos’, em que Dorrit Harazim e Arthur Fontes reencontram os integrantes da família Braz, que haviam filmado há dez anos. Uma década depois, o País mudou, o poder aquisitivo da baixa classe média aumentou, é outro Brasil e o filme dá conta da mudança. Mais que isso – é melhor como cinema. ‘Você não Gosta da Verdade – 4 Dias em Guantánamo’, de Luc Coté e Patricio Henriquez, foi um choque. Ontem, nas condições em que estava, não teria aguentado rever o filme. Achei emocionante a carta de agradecimento dos diretores, lida por Amir Labaki. Eles dizem que o júri, além de avaliar seu trabalho, com certeza se sentiu ultrajado pela injustiça enorme que tentaram descrever. Com base em material inédito, o filme resgata a história desse garoto, com 15 anos na época, que foi preso na base que os EUA mantêm em Cuba, acusado de matar um soldado norte-americano no Afeganistão. Há oito anos ele é mantido em isolamento total, com luz artificial 24 horas. Ninguém fala com ele e Omar Khadr, é seu nome, foi privado de livros, lápis e papel. É uma coisa tão desumana. Lembrei-me da voz chorosa do carrasco de ‘O Segredo de Seus Olhos’, pedindo a Ricardo Darín que fale com ele no desfecho do filme de Juan José Campanella. ‘Dois Tempos’ e ‘Você não Gosta da Verdade’ serão reprisados hoje à noite, às 19 h e 21 h. Vejam. O primeiro estreia nas salas em 3 de junho, mas o segundo talvez sofra o mesmo destino de outros vencedores internacionais do É Tudo Verdade, que nunca chegaram ao circuito. Preparem-se. Vai ser uma porrada, mas vai valer a pena.