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Luiz Carlos Merten

12 Agosto 2009 | 13h07

GRAMADO – Espero não estar cometendo nenhuma injustiça, mas fui agora ao debate de curtas e tive de me conter para não participar. Houve uma longa discussão sobre a maneira como os quatro curtas, ou alguns deles, retratavam o negro. Ou eu me engano muito ou quem cobrava correção era o diretor Luiz Antônio Pillar, de ‘Em Quadros’, cansado de ver bons atores negros fazerem sempre o mesmo papel de bandidos. Em primeiro lugar, sinto-me obrigado a dizer quer os curtas da primeira sessão da competição me decepcionaram. Voltando atrás, quero lembrar que, em meados dos anos 90, um pouco antes, quando não havia produção de longas – na fase anterior à Retomada -, o formato curta virou o território por excelência da experimentação e da criatividade do cinema brasileiro. Gramado anunciou que houve este ano um aumento significativo de inscrições. Nos curtas, o aumento chegou a 80%, com 287 títulos inscritos. Por isso mesmo me causaram estranhamento os curtas de ontem, tão fracos que minha sensação é de que a competição não era pelo melhor, mas pelo menos ruim. Sorry, pessoal, não quero desanimar ninguém, mas foi a sensação que tive. Um filme sobre – e contra – o turismo de gringos na Rocinha (‘Para Inglês Ver’), uma piada sobre o esforço de um presidiário para que não lhe comam o c… na cadeia (‘Em Terra de Cego’), o drama de um casal preso nas ferragens de um carro acidentado (‘Doceamargo’) e um filme de gênero, sobre trio aprisionado por um serial killer que bebe o sangue de suas vítimas (‘Quiropterofobia’). Perdi o bonde da discussão sobre racismo e, depois, achei que, se interferisse, o debate ia ter de voltar muito atrás, retardando o que já estava alongado. Considero legítimo que lideranças, ou intelectuais, negros discutam a maneira como a arte os reflete, embora, ao fazê-lo, ela nos esteja retratando a todos, independentemente de cor. Na verdade, a discriminação do negro no cinema brasileiro – no audiovisual como um todo – é espelho da realidade social. Lembrei-me de Lars Von Trier, em Cannes, em maio, tendo de responder perguntas sobre a sua misoginia. Por que ele detesta tanto mulheres? Quando virem ‘Anticristo’ vocês talvez entendam a preocupação dos que protestavam. Lars ironizou. Disse que ama as mulheres, mas o filme não era sobre ele, mas sobre o mundo e ele não ia idealizar para agradar a ninguém. Queria dizer mais ou menos isso e lembrar que o filme mais polêmico do ponto de vista da questão racial, entre os quatro, ‘Em Terra de Cego’, trata também da questão da homossexualidade. O bandidão, que é negro, quer comer o branquinho, que se defende. Ele já tem um amante, que é negro – negro e gay, duplamente discriminado, portanto. Concordo que é muito mais difícil alguém num debate dizer que é gay e cobrar correção política no tratamento desse personagem. Os negros da história escracham os viados (perdoem o linguajar, mas é para ilustrar melhor o que quero dizer). Não vi o Pillar reclamando quanto a isso e ele pode até dizer que, nessa história de c… não se mete, porque o dele está bem guardado. Mas acho todo esse debate, sinceramente, meio atravessado. As mulheres, os negros, os gays. Daqui a pouco os filmes terão de renunciar à sua vocação de janelas para o mundo em nome de uma correção que não corresponde à realidade. E, se não corresponde, por que tem de estar na arte? Não estou aqui defendendo o racismo nem a discriminação. Só tentando colocar um pouco de bom senso nessa discussão. A dupla de diretores de ‘Para Inglês Ver’ também fez seu filme indignada contra esse turismo perverso que leva estrangeiros à favela, como levaria ao Corcovado ou ao Pão de Açúcar, para ver um mundo que, para os gringos, é exótico, culpa, talvez, de Fernando Meirelles e seu ‘Cidade de Deus’, como poderia muito bem estar dizendo a professora Ivana Bentes.. ‘Para Inglês’deixa claro seu ponto de vista – é contra, mas eu gostaria que isso talvez viesse pelo escracho, mais do que pela ideologização indignada. Essa me parece um contraponto tão restritivo quanto o tratamento cobrado em relação ao negro. Enfim, não estou seguro de estar certo. Apenas proponho uma discussão.