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Luiz Carlos Merten

02 Março 2009 | 19h09

Saí ontem de ‘Rumba’ e corri ao Sesc Paulista para ver ‘Rainhas’. Encontrei a diretora Cibele Forjaz, que me trata com tanta deferência – e gentileza – que fico até constrangido em falar mal do espetáculo. Sei que assisti a três peças de sexta a domingo, e nenhuma me satisfez. ‘A Alma Boa de Setsuan’, ‘Zoológico de Cristal’ e ‘Rainhas’. Acho que existe aí uma abordagem interessante, que é a forma como diretores brasileiros de teatro se relacionam com clássicos estrangeiros, sejam Bertolt Brecht, Tennessee Williams ou Schiller. Com todo respeito pelo trabalho de Cibele, não consigo entrar em suas elocubrações, talvez porque, no fundo, me pareçam muito barulho por nada. ‘Rainhas’ não é a peça de Schiller (‘Mary Stuart’), mas uma apropriação – duas atrizes preparam-se para apresentar a peça e transferem suas tensões para o palco, ou trazem do palco, para a vida, suas diferenças. Acho aquilo meio óbvio, ou pior, amadorístico, mas as pessoas gostam. Na sua peça anterior, que ainda está em cartaz, Cibele já propunha uma intervenção da gente no desfecho. Em ‘Vai Vem’, éramos, nós, o público, solicitados a escrever um nome numa cédula e queimar. Uma colega escreveu o nome da avó que tinha morrido e me lembro que quase teve uma comoção. Não consigo perceber aonde esse tipo de envolvimento pessoal, totalmente subjetivo e nada distanciado, é tão importante. Agora, somos solicitados a reescrever a peça e a própria história – afinal, o embate entre Elizabeth I e Mary Stuart é real e terminou com a decapitação da segunda -, votando em qual rainha deve viver (e qual morrer). Continuo não entendendo o ponto, que me parece estapafúrdio, mas tem gente que considera genial. Essa obsessão de sacudir a passividade e fazer a gente ‘participar’ me parece uma doença bem infantil, tipo teatro para principiantes, não de quem sabe fazer. Não sei, não, mas nessa de ir contra o convencional, estamos criando um convencionalismo às avessas que me parece tão cansativo quanto. Puxando a sardinha para o cinema, poderia dizer que, mal comparando, é o ‘Rio Congelado’. Sundance é a alternativa ‘independente’ a Hollywood nos EUA. Só que ‘Rio Congelado’ é cinema de fórmula total, a fórmula Sundance. Tarantino adorou o filme. Não o vi elogiar o ‘Batman’ de Christopher Nolan. Sorry, mas acho que há mais vida inteligente em ‘Batman’ que em ‘Rio Congelado’ e Nolan, dentro do cinemão, é de uma independência que, essa sim, beira a genialidade.