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Luiz Carlos Merten

12 Agosto 2011 | 10h27

GRAMADO – Nada como um dia, uma noite, depois da outra. Se a terça-feira foi de festa, para mim, a quarta virou pesadelo com a exibição de mais dois concorrentes. Avellar e Sanz gostam de selecionar e programar filmes que dialoguem entre si. O uruguaio ‘El Casamiento’, de Aldo Garay, e o brasileiro ‘Olhe para Mim de Novo’, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman, são documentários que abordam o universo dos transformistas. Um homem que fez cirurgia para virar mulher e que agora, envelhecido, se casa com seu companheiro de muitos anos. Uma mulher que segue o caminho inverso e vira homem no filme de Kiko e Cláudia. O filme uruguaio é de uma pobreza que me deprimiu. Não me refiro só à pobreza dos ambientes, mas dos próprios personagens. O velho não se conforma de viver com outro homem e o parceiro troca de sexo. Santo machismo! A forma não é muito melhor e o cinema uruguaio, que possui um encanto todo especial na sua modéstia, nunca me pareceu tão fraco. A pobreza foi também, e principalmente, estética. No começo do filme brasileiro tive a ilusão de que seria melhor, mas a repetição dos planos da estrada e os sucessivos telefonemas que o protagonista dá à mulher foram me levando à exasperação. Posso ser muito seco, confesso, e a repetição daquelas mensagens – ‘Oi, amor…’, num tom de voz melequento – me deixou à beira de um ataque de nervos. Chama o Almodóvar, por favor. O transformista de Cláudia e Kiko assumiu o nome de Sillvyo Luccio, assim mesmo, com todas essas consoantes dobradas. Ele tem momentos muito interessantes, em que fala sobre a sensação de se sentir prisioneiro num corpo que parece não lhe pertencer, ou quando dialoga com a filha (que teve do próprio ventre). Mas Syllvyo, que Kiko, no palco do Palácio dos Festivais, apresentou como um sujeito doce e sensível, é tudo menos isso. Syllvio é um trator. Ele pode até dizer, como efetivamente disse, no debate, que é um produto de sua cultura, mas, para ser aceito como homem, no sertão da Paraíba, teve de de se fazer  mais macho do que qualquer cabra da peste. Não precisava, de qualquer maneira, ser tão escroto. Depois das hiper-mulheres, o hiper-macho, que coça o saco, mostra a prótese e diz que mulher é como pomba. A gente vai dando de comer com a mão até ganhar a confiança e… Créu! Uma mulher que transforma o próprio corpo em expressão de um machismo empedernido, o ‘caso’, pois é um caso, pode até ser curioso – que palavra horrível, vou substituir por fascinante -, mas o filme não me produziu o menor fascínio. Vou passar prova de ignorância. Sillvyo anda ali na estrada. Numa cena, o gado invade o asfalto. Vacas, bois? Não consegui perceber o sexo. O plano é longo, porque vem um ônibus lá longe e a câmera espera que se aproxime, como se fosse atropelar ou desviar do gado. Que raio de metáfora é aquela? As mulheres, além de pombas, são vacas? Os homens, incluindo Sillvyo, formam um rebanho? Há dois dias aquelas imagens me perseguem e talvez não signfiquem nada para o casal de autores. O delírio é meu. Para eles, pode ser só um eco de ‘Paris,Texas’, sabem como é, a paisagem, etc e tal. Perdi o debate de ‘Olhe para Mim de Novo’ porque tinha muitas matérias na ediçãio de hoje do ‘Caderno 2’, além de entrevistas por telefone. No final, Cláudia Priscilla disse que precisava almoçar com urgência, porque seu sangue havia sido drenado. Eu tenho me sentido muitas vezes assim. Tanto filme ruim, insatisfatório. O que eu preciso é de um banquete de cinema, que Gramado não está me dando.