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Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2006 | 13h50

Meu querido diário – como diria minha colega Regina Cavalcanti, do Estado. Estou desde ontem em Porto Alegre. Tive um problema e hoje de manhã fui ao dentista. Esperei meia-hora na abre-sala e meia-hora na cadeira. Achei demais. Levantei-me e fui embora, para desconcerto da secretária que corria atrás de mim, me oferecendo um copo d’água. O que isso tem a ver com o blog? Pois tem. Na ante-sala, havia uma mulher resolvendo todos os problemas dela ao celular. Só besteira, nada que prestasse ou que tivesse serventia mínima, para quem quer seja, nem para ela. Nem como fofoca ¬- quem se interessa por fofoca de gente anônima? Acho que, no fundo, as duas coisas estão mais conectadas do que parecem. São representativas da chamada ‘vida moderna’. O dentista, nem importa o nome, marca o horário que não cumpre. As pessoas transformam o celular numa muleta, para não ter de ficar sozinhas com elas mesmas por muito tempo. Antigamente, as pessoas liam, enquanto esperavam. Hoje, falam ao celular. Por que essa obsessão? Sou jornalista, um cara ocupado, corro de um lado para outro, mas o dia em que eu comprar um celular me internem – vou estar louco de vez. Em vez de gastar uma fortuna com o inútil do Ronaldo, a Tim, ou qualquer outra empresa de telefonia, deveria tentar me cooptar. Ia ser tempo perdido, mas que ia ser divertido, ah, isso ia. Já cansei das vezes em que briguei no cinema por causa de celular. Outro dia estava no banheiro do jornal e alguém, no ‘compartimento’ ao lado, falava no dito aparelhinho. O cara fez um esforço, como ocorre às vezes, com o perdão da vulgaridade. A voz meio que desmaiou, sabe como é, mas ele não largou o celular. Pode? Li que na Inglaterra uma pesquisa mostra que as pessoas andam falando ao celular até durante o sexo. Ou, então, estão nas preliminares quando toca o celular e elas páram para atender. Perdão, querido/querida, mas pode ser importante, né? Digamos que algumas ligações podem ser realmente importantes. De/e para médicos, por exemplo. Por experiência própria, posso dizer que, em geral, caem no correio de voz. Um dos últimos refúgios da privacidade vai cair. Li na revista de bordo da Tam que a interdição de falar ao celular durante o vôo vai cair num par de meses. Sei lá que sistema inventaram que vai garantir a segurança, não interferindo no sistema de bordo. Já imagino essa gente toda ao celular. É o horror, pois as pessoas falam, falam, as empresas enriquecem, mas eu duvido que a incomunicabilidade de que Antonioni falava nos anos 60 tenha acabado por isso. Já foi até tema de filme – Denise Está Chamando. O homem aperfeiçoou o sistema de comunicação mas as pessoas nunca se comunicaram tão pouco. Aprimorou o sistema de informação e a alienação nunca foi tão grande. Enfim, eu não preciso de celular, mas preciso exercitar a imaginação, preciso de fantasia. Estréia hoje Eragon. Volto daqui a pouco sobre o filme do Stefen Fangmeier. Não quero celular, quero Eragon!

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