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Sobre um certo maiô branco

Luiz Carlos Merten

02 Dezembro 2006 | 17h41

Passei o dia abrindo caixas e colocando nas estantes livros e revistas que estavam acumulados desde que troquei de endereço. É a parte ruim das mudanças, mas tive algumas gratas surpresas, como (re)descobrir um número antigo da revista francesa Studio. Com o título Les Étoiles de Hollywood Vont à la Plage, As estrelas de Hollywood vão à praia, a revista mostra imagens de maiô de algumas das mais desejáveis mulheres do mundo. A capa é um desbunde – Elizabeth Taylor no maiô branco que usa em De Repente, no Último Verão, de Joseph L. Mankiewicz, filme-farol do cinema americano por volta de 1960. Com base no texto de Tennessee Williams, Mankiewicz, o cineasta da palavra – sua mise-en-scène construía-se no dinamismo dos diálogos, dizia o maior de todos os críticos, Jean Douchet – criava todo um fabulário, incluindo a visão de Deus nas tartarugas expostas ao sol numa praia e flores canibais para falar de um assunto que não ousava dizer o nome em Hollywood, o homossexualismo. Grande Tennessee Williams. Poucos autores serviram tanto ao cinema (e o cinema serviu-se dele). Grandes diretores (Kazan, Mankiewicz, Brooks, Losey) fizeram filmes deslumbrantes, mesmo quando edulcoravam a gayzice dos heróis que filmavam (caso, entre outros, do Paul Newman de Gata em Teto de Zinco Quente), para não ferir o star system nem o Código Hays, que disciplava o uso do sexo e da violência nas telas. Viajei naquela capa da Studio. Liz, em 1959, era a mulher mais bela do mundo, antes de engordar para fazer a Martha de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e perder a forma. Às vezes me pergunto se o Oscar que ela recebeu pelo papel valeu a pena, mas aí penso na garçonete de Anjos do Mar, dizendo a Kevin Costner que não se arrepende de nada e que todas as marcas no seu rosto e gorduras no seu corpo são sinais de quem viveu e amou e gozou e foi feliz. Vi a Taylor uma vez em Cannes. Deve fazer mais de dez anos. Procurei ficar o mais próximo possível e acho que olhos como aqueles Deus ou a natureza perderam a fórmula que resultou naquele mistério cor de violeta.