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Luiz Carlos Merten

19 Agosto 2007 | 13h24

PORTO ALEGRE – Gostei da premiação da competição estrangeira (a latina), achei o júri nacional meio pirado – e não só pela zebra da vitória de Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais -, mas confesso que me desapontei mesmo foi com o júri de curtas. Acho bem bacana o curta que ganhou. Alphaville 2007, de Paulinho Caruso, dialoga com o Alphaville de Godard, mas de uma forma que é como se o estivesse filtrando pelo Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. Achei muito engenhoso o recurso do texto em francês, subvertido pela presença do justiceiro negro que, a cavalo e de arma na mão, acerta as contas do abismo social brasileiro com o executivo que trabalha com blindagens. Gostei bem menos, é verdade, da participação do Abujamra, que me pareceu o over do over. Não se trata de desqualificar Alphaville 2007 nem Esmir Filho, que ganhou o prêmio de direção por Saliva, mais uma etapa no seu diálogo com as platéias jovens, por meio de outra história de iniciação (agora é o primeiro beijo de uma menina). Minha bronca foi porque meu favorito ganhou um prêmio de consolação, para a melhor fotografia. Não que a fotografia de Satori Uso, de Rodrigo Grota, não merecesse aquele Kikito, mas o filme é muito mais. Senti-me recompensado quando Nacido y Criado ganhou os Kikitos de melhor filme e diretor (Pablo Trapero) da competição internacional de longas. Rodrigo fez a melhor crítica de Nacido y Criado. Satori conta a história de um poeta que não existiu, filmada por um documentarista imaginário. No começo, Jim Kleist, o falso diretor, do falso filme dentro do filme, diz que Satori era um homem que queria viver na sombra, como o herói de Nacido y Criado, após o acidente com sua família. Para falar de um personagem desses é preciso criar um interesse dramático ‘exterior’ a ele – o filme dentro do filme, a musa Satine, inspirada na Nicole Kidman de Moulin Rouge. Em Nacido y Criado, é o colega ao qual o protagonista se une e cujo drama familiar é um pouco o dele. Gostei muito de Nacido y Criado, achei Jogo de Cena, do Coutinho, a obra-prima desse festival, mas fiquei chapado com Satori Uso. Também gostei de A Psicose de Valter, que o júri esqueceu completamente. Minha premiação de curtas até poderia incluir Alphaville 2007, mas seria outra. Batendo com o júri oficial só a vitória de Caroline Abras como melhor atriz, por Perto de Qualquer Lugar, de Mariana Bastos. Me disseram que Caroline já está fazendo, ou vai fazer, um longa. Ela é a nossa Chloë Sevigny, você vai ver.