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Sobre meninos e lobos (2?)

Luiz Carlos Merten

06 Março 2018 | 08h25

Como relatei no post anterior, o Oscar me fez ficar até de madrugada no jornal. Dormi pouco e na manhã de ontem já estava na rádio, comentando a premiação. Na sequência, fui ver o Clint, 3:17 – Trem para Paris. Ando sob um estresse danado, confesso. Estava cansado, num sentido bem amplo. Na saída, comentei com Isabela Boscov que me sentia ridículo. Tive uma crise de choro vendo o Clint. A maioria, me informou o pessoal da Warner, achou o filme ruim, horrível, etc. Eu tive um choque. Havia visto o treiler, tiroteio num trem, mas não fazia a mínima ideia do que era. Talvez seja melhor deixarem para ler depois – olha o spoiler. Clint volta à vertente cristã de Gran Torino, para mim, um de seus mais belos filmes. Conta a história real de três garotos que crescem portando armas, brincando de Exército, essas coisas. Adultos, um deles sonha entrar para o Para-Sar, mas é recusado. Quando menino, sofria bullyng e vira essa pessoa que tenta se integrar, se sentir útil. Ao amigo, durante viagem pela Europa, diz que sente como se estivesse indo ao encontro de seu destino. E quando diz isso, o amigo, ao lado, lhe pergunta que barato está fumando? Pela primeira vez em sua carreira, Clint trabalha com atores não profissionais. Muito do interesse do filme vem daí. Seus protagonistas estão (re)vivendo a própria história. Clint, como é sabido, viveu na Itália, onde virou astro de spaghetti westerns. Numa cena, os jovens vão ao Vaticano. Existem referências ao papa (Francisco?) e o diretor incorpora a oração de São Francisco – ‘Onde existe ódio, permiti que eu semeie amor.’ No início, com todo aquele aparato militar, o espectador pode pensar que o diretor se rendeu à Associação do Rifle, e isso no momento em que repercute a chacina na Flórida. Mas não – o recorte é anti-armamento, com direito ao ex-presidente François Hollande, em pessoa!, para nos fazer refletir. Fui pesquisar e vi que The Guardian achou o filme ‘dull’. Eu vi outra coisa, e bem boa. Clint refez Sobre Meninos e Lobos. Lá, também era sobre três garotos e as consequências do abuso que um sofria e os outros se recriminavam – pela vida – por não haverem tentado ou conseguido impedir. Agora, outros garotos. Quem narra é o negro. ‘Vocês devem estar-se perguntando o que eu faço com esses dois branquelos? Acontece que são meus melhores amigos.’ São três, e unidos, mas a história tem um protagonista, e é o grandão do grupo, Stone, que se inicia sofrendo bullyng na escola, atravessa o filme sofrendo bullyng no Exército – a maneira como seus superiores e a professora militar o tratam -, mas basicamente nunca deixa de ser o bom moço que só precisa se encontrar. A mãe solteira, recriminada por isso, lhe diz. ‘Deus me disse que você tem uma missão. Quero saber qual é, e como você vai agir.’ Talvez seja a ‘idiotice’ do filme – num mundo individualista, por que se preocupar com os outros, como faz Stone? Na simulação de ataque, no Exército, Stone é ridicularizado por se armar com uma caneta. ‘O que você espera fazer com isso?’ O ‘normal’ seria portar e descarregar armas. Quando tenta reanimar um quase morto, ainda durante o curso, faz tudo errado. Mas, na hora H, no trem para Paris, é diferente. Enquanto todos fogem – salve-se quem puder -, Stone só tem as próprias mãos nuas, e as dos amigos, para fazer frente ao perigo. Clint viu Alfred Hitchcock, Cortina Rasgada. A morte de Gromek. Como é difícil matar um homem. Três contra um, os meninos e o lobo. Republicano, e em plena era Trump, Clint escolhe fechar seu novo filme com um (ex)presidente socialista num discurso humanitário. Inclusão, diversidade. Até por conta do problema no joelho, tenho ficado mais em casa, visto TV, muito noticiário. O estado do mundo me deprime a cada dia. Também eu me pergunto como reagir a tudo isso? O filme de Clint fornece –
me forneceu – chaves muito interessantes.