Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Sobre gays e reis

Cultura

Luiz Carlos Merten

16 Fevereiro 2011 | 18h03

BERLIM – João Marcelo cita os casos de Hilary Swank e Sean Penn, que ganharam o Oscar fazendo papeis de gays, para contestar minha afirmação de que a Academia talvez tenha sido preconceituosa, deixando de premiar Colin Firth no ano passado, por ‘O Direito de Amar’. João Marcelo deve ter-se esquecido, mas Tom Hanks também ganhou o prêmio fazendo o gay aidético de ‘Filadélfia’, de Jonathan Demme. Nem discuto o caso de Hilary Swank. Me parece um absurdo que ela tenha recebido um Oscar, o de ‘Meninos não Choram’, de Kimberly Peirce, mas logo em seguida ela ganhou o segundo, por ‘Menina de Ouro’, um filme do qual gosto, de Clint Eastwood, mas não particularmente de sua interpretdaçãso, e essa dupla vitória, somada às de Charlize Theron e Halle Berry estão entre os motivos que me fazem desconfiar (desistir de levar a sério?) o dito troféu. Mas há verdade é que existem explicações. Os prêmios para Hanks e Penn não poderiam ter sido mais politicamente corretos – um gay que luta na justiça por sua dignidade, outro que é assassinado justamente quando ganha o reconhecimento dos seus ‘diferentes’ na política. Já o gay de Tom Ford, baseado na experiência do estilista, que havia perdido o companheiro, era uma visão de dentro demais da homossexualidade – não posso ficar batendo na tecla do ‘ismo’, porque senão o patrulheiro Orlando Margarido vai querer me matar. Mas o João Marcelo, no limite, talvez tenha razão, sim – para ser palatável para os acadêmicos de Hollywood. E Colin Firth, por melhor que seja, era um romantic lead. A indicação do ano passado foi importante porque ampliou seu registro, agora confirmado com ‘O Discurso’. Tudo isso faz sentido, e reafirma para mim o preconceito – o gay herói é uma coisa, o anônimo é outra -, mas tenho de concordar com o João Marcelo de que talvez exista, sim, esse desagrado. Meu gosto não bate com o da Academia e, portanto, não vejo por que ficar avalizando o que me, basicamente, desagrada. Como assim premiar ‘O Discurso do Rei’ contra ‘A Rede Sociasl’, de David Fincher, ou ‘A Origem’, de Chistopher Nolan? Esse último nem foi indicado na categoria de direção. Tudo isso me vem a propósito da coletiva de ‘O Discurso do Rei’, a que acabo de assistir. Estavam Colin Firth, Helena Bonham Carter e o diretor Tom Hooper. Foram ovacionados ao entrar na sala. Nenhum outro filme, nem o virtual vencedor do Urso de Ouro – o iraniano ‘Nader and Nisim’ -, teve essa recepção. Bando de colonizados. Hooper, coitado, foi mero coadjuvante. A maioria das perguntas – nde entre dez – foram dirigidas a Firth e Helena. Gosto da sra. Tim Burton desde que ela fez ‘Uma Janela para o Amor’, de James Ivory, e depois ‘Clube da Luta’, de David Fincher, mas Helena, além de ser uma das mulheres mais malvestidas do mundo (a mais?), leva essa cafonice para as atitudes. Ela ri de um jeito muito vulgar e desagradável, mas  pode ser que tenha certa dose de razão, porque o nível das perguntas de jornalistas de todo o mundo beirava o chão. Confesso que tentei, mas não consegui aproveitar nada do que disseram, Firth e ela. Sim, eles respeitam a realeza inglesa como indíviduos, os papeis eram exigentes (demanding), mas era tudo tão bem escrito e encenado que Firth admite que não teve tantas dificuldades assim. Bastava-lhe olhar no rosto de Helena, de Geoffrey Rush. Very touching. O diretor foi honesto. Disse que estaria mentindo, se não sonhasse com o Oscar, mas só estar indicado já é uma honra etc. Já não gostava muito de ‘O Discurso do Rei’. Gosto menos ainda, mas João Marcelo, por favor, sinta-se à vontade para gostar. Pegando carona em Colin Firth, o direito de amar é garantido aqui no blog. Ah, sim, ao contrário de Helena, Colin Firth estasva elegantíssimo num tertno preto. Me deu vontade de perguntar – seria de Tom Ford?