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Cultura » Sob o signo de Freud

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Luiz Carlos Merten

02 Julho 2009 | 13h02

Acho que foi José Onofre, o grande, mas nem me lembro mais se li isso em algum de seus textos ou se ele me disse pessoalmente, nas muitas vezes em que trabalhamos juntos – no Colégio Israelita Brasileiro e na ‘Folha da Manhã’, em Porto; no ‘Estado’, aqui em São Paulo. José Onofre dizia que Brando encarnava o herói masoquista, que só conseguia se redimir pelo sacrifício. Poucos atores apanharam mais do que ele na tela. Brando levou surras memoráveis em ‘Sindicato de Ladrões’, ‘A Face Oculta’ e ‘Caçada Humana’. O segundo foi por ele próprio dirigido. Vai gostar de apanhar assim no inferno… Pensando bnem, ninguém precisava mandar Brando para o inferno, nunca. Ele construiu seu inferno pessoal, seu apocalipse. Os ‘entendidos’, psiquiatras e quetais, dizem que seu estilo de vida excêntrico, com base na família disfuncional em que surgiu, minaram sua psique e o levaram a reproduzir um modelo que implodiu a outra família – a filha se matou, o filho foi condenado por assassinato. Cinéfilo que se preze sabe que a filmagem de ‘A Face Oculta’ foi uma das mais complicadas da história. A produção decolou em meados de 1957. O filme estreou no começo de 1961. Foram quase quatro anos, durante os quais o diretor original, Stanley Kubrick, não aguentou os caprichos do astro, mas como Brando tinha cacife em Hollywood, Kubrick, e não o ator, foi demitido. Brando assumiu a direção, mas se enganava quem achou que ele puydesse fazer um western minimamente convencional. Brando fez seu western com vista para o mar – é, de resto, o título de um memorável texto de Ruy Castro no ‘Caderno 2’: Um bangue-bangue com vista para o mar –, impos ao filme um ritmo lento e introspectivo que, na época pelo menos, era novidade. Você sabe a história. Brando e Karl Malden são assaaltantes, ambos são pilhados num golpe, Malden foge e Brando é preso. Anos mais tarde, ele persegue o antigo companheiro para se vingar, mas Malden é agora é xerife numa cidadezinha da fronteira mexicana, adquiriu uma fachada de respeitabilidade e não vai permitir que Brando o destrua em sua nova vida. Malden casou-se com Katy Jurado. Ela tem uma filha, Pina Pellicer, que Brando conquista, por amor ou parte da vingança (os sentimentos são ambivalentes). O primeiro roteiro foi escrito pelo jovem Sam Peckinpah, que depois viraria diretor (e foi aprovado pelo astro). Kubrick, que havia sido contratado – depois – para a direção, demitiu Peckinpah e resolveu reescrever o material. Começaram aí suas dificuldades com Brando. Os dois não se acertavam na direção a dar aos personagens. Brando queria que eles não tivessem caráter, Kubrick discordava. Demitido da produção, Kubrick assumiu o leme de ‘Spartacus’, um épico do qual o diretor original – Anthony Mann – fora defenestrado por outro astro, também produtor, Kirk Douglas. A lenda conta como Brando refuilmou 160 vezes um plano que não foi aproveitado, como tomou um porre de verdade para uma cena de bebedeira – e deu ordens ao fotógrafo Charles Lang que continuasse filmando –e como gastou 1 milhão de pés de filme, recorde absoluto, exigindo que 250 mil pés fossem revelados (outro recorde em Hollywood). A lista das excentricidades é interminável, incluindo o desfecho, que, como coelho sacado da cartola de um mágico, foi rodado mais de um ano depois que toda a equipe tinha sido dispersa. Tudo isso poderia – deveria, segundo a ótica de Hollywood – condenar ‘A Face Oculta’ ao fracasso. Bem – houve fracasso, de público –, mas o filme virou cult e é poderoso. A cena da surra é memorável, mas o momento de ‘A Face Oculta’ que faz parte do meu Olimpo é um diálogo entre mãe e filha, Katy, que havia sido um caso de Brando, e Pina, com quem ele estava tendo um affair, têm essa conversação tensa. Katy era, como Brando e Malden, uma atriz do ‘método’. Ouço até hoje quando sussurra, mais do que pergunta – ‘Por qué lo hiciste, Luísa?’ (é o nome da personagem de Pina e a interrogação refere-se ao fato de Luísa haver cedido à ofensiva sexual de Brando na ficção; na realidade, era outra história, mas é possível que o verdadeiro significado da conversa fosse esse). E Pina não responde, balbucia – ‘Porqué creí que me amába.’ Neste momento em que escrevo, sou tentado a dizer que, em toda a história do western, a despeito de Ford e outros grandes do gênero, não conheço momento mais doloroso. Pungente, mesmo. Pina Pellicer matou-se em 1964. Logo após ‘A Face Oculta’, de volta ao cinema mexicano, fez ‘Macário’, de Roberto Gavaldón, com Ignacio López Tarso como o camponês que tenta enganar a morte (como o cavaleiro de Bergman em ‘O Sétimo Selo’, mas os dois filmes são muito diferentes). Pode ser fantasia minha, mas Pina, tão frágil, sempre me deu a impressão de haver começado a morrer naquela cena do western de Brando. Até isso acrescenta um elemento a mais de fascínio a ‘A Face Oculta’, que Ruy Castro, voltemos a ele, define como um bangue-bangue, não sob o signo de Ford, mas de Freud.

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