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Luiz Carlos Merten

16 Junho 2010 | 16h04

E o crítico de ‘The Guardian’, hein? Sei lá quem é o cara, mas, pelo texto de Raquel Cozer no ‘Caderno 2’ – fui procurar informações sobre ‘Kick Ass’ –, ele achou o filme de Matthew Vaughn tão pós-moderno que faz todos aqueles que vieram antes parecerem relíquias de uma era passada. Todos quem, cara pálida? Estamos falando de quê, ou quem, exatamente? Deu a louca no mundo, como diria o ‘velho’ Stanley Kramer. Anteontem, na cabine de ‘Karate Kid’, a nova versão, perguntei, não me lembro para quem, que tal o filme que virou fenômeno na internet. A resposta – é legal, bem politicamente incorreto. Vi ontem outro filme perto do qual ‘Kick Ass’ não dá nem para a saída em termos de incorreção política – ‘Gente Grande’ chega a ser, como se diz, ‘ofensivo’ e tem, por isso mesmo, cenas engraçadíssimas, mas são barra-pesada, reconheço. Se é para arregaçar, Adam Sandler e Rob Schneider acreditam que a  melhor maneira de fazer isso é com grossura. ‘Kick Ass’ é, comparativamente, soft, exceto na pancadaria, mas é uma violência de cartum, tipo ‘Tom & Jerry’, em que as pessoas se arrancam pedaços, mas não ‘dói’, entendem? A história do garoto que quer ser super herói – e vira um, a despeito de sua inabilidade inicial para a função – é violenta paca, mas eu não diria que é ‘incorreta’. Pelo contrário. Tirando os fatos de que se toma muito a sério na exploração das motivações ‘psicológicas’ dos personagens (nada mais hollywoodiano) e que é comprido pra cacete, justamente para acomodar todos os psicologismos de que lança mão, tenho para mim que o filme só superficialmente é para fazer rir e, na verdade, é muito selfconscious (mais do que paródico, ou irônico). No final, é até muito sério. Tudo se ajusta (em ‘Gente Grande, também). O cara vira super-herói, a menininha vai para a escola (e recupera a infância que o pai lhe roubou, obcecado por vingança). Mas não vou negar que, embora conferindo o andar da carruagem no relógio – e os ponteiros não andavam, duas horas de duração!, tanto quanto qualquer episódio de ‘Homem-Aranha’ –, consegui dar boas gargalhadas, mais com a doidinha da Hit Girl do que com o herói, propriamente dito. Acho interessantes esses filmes, como tendências. Depois de anos batendo nos nerds, Hollywood descobriu que eles cresceram e, na verdade, devem ter virado os novos executivos dos estúdios. Admira esse tal de ‘orgulho nerd’ que anima filmes como ‘Superbad’ e ‘Kick Ass’? Os punheteiros venceram, desculpem a vulgaridade, mas é disso que se trata, e é baboseira querer dourar a pílula. É tendência, e deve vir mais por aí. O que não subestimo é a força da internet na criação desses ‘fenômenos’. Se há uma coisa que Hollywood sabe, é se reinventar. ‘Kick Ass’ é a prova. O filme estreia depois de amanhã. Honestamente, achei ruim, mas o que importa? Só para constar – o título do post me foi sugerido pela capa do ‘Globo’ de hoje. ‘Tanto segredo para isso?’, criticando a seleção de Dunga que, a duras penas, bateu a da Coreia. Tive mais ou menos essa sensação assistindo a ‘Kick Ass’. Só isso? Para tanto auê, esperava mais.