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Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2009 | 12h34

Anteontem, no aeroporto de Atlanta, estava embarcando de volta para o Brasil quando comprei um livro para ler no vôo. Dei uma geral e optei por ‘Wishful Drinking’, de Carrie Fisher, a princesa Leia da primeira trilogia, agora segunda, da série ‘Star Wars’. Carrie foi casada com Paul Simon, um homem que dominava a arte das palavras e que estimulou nela o desejo de escrever. Ela é autora, entre outros livros, de ‘Postcards from the Edge’, que não li, mas vi o filme – que vocês também devem ter visto –, adaptado por Mike Nichols, ‘Lembranças de Hollywood’, com Meryl Streep e Shirley MacLaine no papel dela e de sua mãe, Debbie Reynolds. ‘Postcards’ é autobiográfico como ‘Wishful’, mas Carrie não é egocêntrica – egotista? – e suas viagens interiores são filtradas pelo humor. Ela pode estar falando dos eletrochoques que recebeu, do amigo gay que morreu de overdose de medicamento em sua cama e de outras experiências que devem ter sido devastadoras, mas esta mulher é uma sobrevivente e oferece sua vida para que o leitor tire as lições que quiser. Sua narrativa do processo de separação dos pais – Eddie Fisher abandonou Debbie Reynolds para consolar, primeiro com flores, como Carrie conta, depois com seu pênis, Elizabeth Taylor, que havia ficado viúva (de Mike Todd), mas logo em seguida ele próprio seria trocado por Richard Burton – é hilária. Carrie conta que era criança e assistia à série ‘Papai Sabe Tudo’, com Robert Young e Janet Wyatt. Não perdia um episódio. Talvez pela falta da figura paterna ou por ser a mãe uma estrela e ela viver em sets de filmagens ou backstages de teatros, Carrie achava que ‘Papai Sabe Tudo’ era a realidade e a vida dela era falsa – e hoje ela admite que talvez não estivesse tão errada assim. O casamento com Paul Simon não deu certo porque ambos eram como duas flores e nenhum se ocupava do jardim, como definiu Mike Nichols. O outro marido foi maravilhoso, great sex, mas um belo dia ele abandonou Carrie pelo melhor amigo, o que levou Debbie a refletir – ‘Nossa família já teve de tudo, de ladrões de cavalos a ladrões de bancos, mas um marido homossexual o seu é o primeiro. Parabéns!’ Carrie tinha fifty two quando escreveu seu livro. Hoje, como o beatle, eu sou sixty four. Se eu tirei alguma lição do livro dela? Nenhuma que já não tenha descoberto por mim mesmo (mas experimentei o prazer da leitura). Não existe melhor remédio para os males do que viver. Com sorte, a gente alcança até um pouco de sabedoria.

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