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Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2010 | 13h46

Quem foi que me perguntou que lembrança tinha de ‘Chamas Que não se Apagam’? O filme pertence à série de melodramas de Douglas Sirk que estão sendo resgatados pela Versátil. Não tinha lembrança alguma pelo simples fato de que nunca havia assistido ao filme. Agora, vi. No livro com a entrevista que deu a Jon Halliday, o próprio Sirk não se lembra de ‘There’s Always Tomorrow’ (título original), mas acrescenta que não tinha uma impressão muito desfavorável. Nem poderia – o filme é bom. O diretor elogia os atores, Barbara Stanwyck e Fred MacMurray, que Billy Wilder já reunira em ‘Pacto de Sangue’, dez anos antes. E Sirk não se perdoava por ter filmado em preto e branco. Diz que ‘Chamas’ exigia a cor. O filme é sobre um homem ambivalente – um sucesso na fábrica, mas um fracasso no lar. Não é por acaso que sua fábrica é de brinquedos. Insatisfeito no casamento – e com a vida em geral -, MacMurray reencontra a antiga paixão (Barbara), que desestabiliza seu precário equilíbrio doméstico. Mas Barbara se decepciona. Ela espera um homem, encontra um garoto crescido. Barbara era uma atriz extraordinário. O que na época era a modernidade do seu estilo de representação serve à personagem e faz a força do filme. Em oposição a ela, MacMurray é opaco. Seu egoísmo e os comprometimentos são mostrados sem complacência nenhuma. Sirk, afinal, fazia melodramas baseados na família para denunciar a hipocrisia social. Os próprios filhos são tratados com dureza, dando prosseguimento a ‘Tudo o Que o Céu Permite’, com Rock Hudson e Jane Wyman, que ele havia feito no mesmo ano. No outro filme, os filhos, preocupados com eles mesmos, tentam resolver o vazio existencial da mãe viúva dando-lhe de presente uma televisão. Estou em casa e fui procurar o que Bertrand Tavernier diz sobre ‘Chamas’ em ’50 Anos de Cinema Americano’. Ele diz que guarda desse filme tão emocionante uma sensação de fracasso e a lembrança de um melodrama amargo e noturno. Os ambientes são vazios – as casas parecem construídas em série – e a chuva mais isola as pessoas em si mesmas do que as ‘lava’ para um recomeço. Sirk, sem entrar em detalhes, concentra os defeitos de ‘Chamas’ em dois tópicos – o roteiro, segundo ele, deixava a desejar e a atriz que faz a mulher de MacMurray, Joan Bennett, não foi uma boa escolha, o que não quer dizer que a culpa fosse dela. Joan era irmã de Constance Bennett e as duas fizeram carreira importante em Hollywood (Joan mais, até). Preciso só acrescentar que o pacote da Versátil que traz “Chamas Que não Se Apagam’ inclui – Domingo Maldito’, de John Schlesinger, p… filme; ‘O Mercador de Almas’, de Martin Ritt, primeiro filme do casal Paul Newman/Joanne Woodward, adaptado de William Faulkner – de quem o Sirk também adaptou ‘Pylon’ e o filme dele se chamou ‘Almas Maculadas’ no Brasil, sendo do mesmo período, 1957/58 -, e finalmente um Bergman, ‘Quando as Mulheres Esperam’. Ou seja, só esse pacote da Versátil me dá subsídios para um monte de posts, que prometo ir acrescentando.