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Cultura » ‘Simun geki’

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Luiz Carlos Merten

24 Julho 2010 | 09h58

Confesso que ia ignorar, bancando o superior’. Havia sido convidado para debater a obra de Yasujiro Ozu no ciclo do Centro Cultural Banco do Brasil. Só que quem me convidou o fez antes que o debate virasse um evento ‘Folha’. O debate foi realizado anteontem, no fim da tarde, e eu só fui ‘desconvidado’, não sem certo constrangimento, no último momento. Pensei com meus botões – se fosse um evento do ‘Estadão’, duvido que Inácio Araújo tivesse sido desconvidado, mas, enfim, o próprio histórico dos dois jornais explica essas coisas. Quem viu ‘Cidadão Boilesen’ sabe do que estou falando. E esta gente se acha dona da verdade. Não seria o caso de eu ir reclamar na Sociedade Interamericana de Imprensa? Brinco, claro. Espero que o debate tenha sido bom. Por Ozu. Não havia preparado nada, pretendia improvisar, mas creio que teria feito uma viagem muito pessoal (como sempre). Conheci o cinema de Ozu no começo dos anos 1960, cortesia de P.F. Gastal, no Clube de Cinema de Porto Alegre, que promovia eventos para divulgar os autores e cinematografias que considerava fundamentais. O cinema japonês era uma descoberta recente no Ocidente, havia o cinema de ação -os jidai geki, dramas de época, geralmente filmes de sabre – de Akira Kurosawa. Em Porto, Gastal nos iniciou no culto de Masaki Kobayashi, cuja monumental trilogia, ‘Guerra e Humanidade’, também conhecida como ‘A Condição Humana’, ele amava. E havia os mais difíceis porque considerados demasiado ‘orientais’, como Mizoguchi e Ozu. O cinema deste último se inscrevia na vertente do shimun geki, formada por dramas e comédias populares e de recorte intimista. No meu imaginário, Ozu sempre esteve, e está, associado a Mikio Naruse, que descobri na mesma época, e isso apesar das enormes diferenças entre ambos. Naruse bebeu na fonte do neo-realismo, que não interessava a Ozu – na verdade, sua primeira influência foi do cinema norte-americano. E Ozu era muito mais clássico, tendo depurado seu esilo até o limite do minimalismo. Havia ainda um terceiro grande intimista no cinema japonês da época, e era Heinosuko Gosho, cujo ‘Corvo Amarelo’ é um dos filmes míticos da minha formação. Nunca mais o vi, não sei se o filme é tão bom quanto me lembro, mas Gosho dispõe de excelente reputação junto a críticos e historiadores de cinema. E sua obra foi extensa, mais de 100 filmes. Outro filme dele que me marcou muito foi ‘As Quatro Chaminés’, do começo dos anos 1950. Passa-se num bairro pobre de Tóquio, dominado pelas chaminés do título. É um filme sobre operários, centrado em dois casais. Ambos enfrentam dificuldades materiais, agravadas quando a mulher de um deles acolhe esse bebê do ex-marido, que ela acreditava morto, mas vive como um mendigo, nas ruas. A criança não para de chorar e isso cria um inferno na casa compartilhada pelo quarteto. No limite do desespero – ninguém mais consegue dormir, os casais brigam -, a mulher tenta se matar. Heinosuke Gosho não era mole. Bem gostaria de que quem nos trouxe o Ozu trouxesse também seus filmes. Os cinéfilos iriam agradecer.

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