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‘Simplesmente Feliz’

Luiz Carlos Merten

22 Abril 2009 | 10h42

Brenda Blethyn foi melhor atriz em Cannes por ‘Segredos e Mentiras’, Imelda Staunton melhor atriz em Veneza, por ‘Vera Drake’, e Sally Hawkins melhor atriz em Berlim, por ‘Simplesmente Feliz’. Antes disso, David Thewlis havia sido melhor ator em Cannes, por ‘Naked’. Ser ator e, principalmente, atriz de Mike Leigh já é meio caminho andado para obter reconhecimento nos maiores festivais do mundo. Fui rever ontem ‘Simplesmente Feliz’. O filme está na sala 5 do anexo do Espaço Unibanco (51 lugares). As sessões têm lotado sistematicamente, e nem precisa ser no fim de semana ou feriado (como ontem). Conversei com a funcionária da bilheteria e ela acha que o filme vai ganhar um ascenso para uma sala maior. Não havia gostado muito de ‘Simplesmente Feliz’ quando vi o filme na Berlinale de 2008. Achei a personagem meio caricata, boba alegre, e não consegui achar o ponto do autor. Ontem, gostei mais. A interpretação é nuançada, bem mais do que me parecera, e a mágica de Mike Leigh consiste em fazer com que seus atores e atrizes ofereçam uma gama variada de emoções. Não é só drama, não é só comédia. A trilha também me pareceu maravilhosa, alguma coisa de Nino Rota para um filme de Fellini (embora o diretor rechace qualquer aproximação entre seu trabalho e ‘As Noites de Cabíria’). Mas o filme, falo de ‘Simplesmente Feliz’, continua me desconcertando. Poppy, a personagem de Sally, começa o filme irritantemente feliz. Confrontada com todas aquelas experiências – o menino violento na sala de aula, o sem-teto, o instrutor neurótico –, ela termina por expor sua vulnerabilidade, mas quando o filme termina, inclusive com a promessa de um relacionamento estável, com um cara gostoso, a heroína está remando, literalmente, no laguinho e a sensação, o tom, é de que está numa m… maior do que quando sua história começou. Não é um happy end nem um unhappy end. ‘Simplesmente Feliz’, na verdade, dá a impressão de não terminar. Amigos (Dib Carneiro Neto, Vilmar Ledesma, que me ligou agora de manhã) não gostaram muito. Eu gostei de (re)ver, mas não consigo ser conclusivo, talvez porque o filme não o seja – não sei se vocês me entendem. Saí do cinema pensando no ‘Divã’. Muitas das angústias de Poppy, que está ficando para ‘titia’ , são as mesmas de Mercedes, que termina comparando o marido a um Armani que emprestou para uma amiga e o vestido ficou melhor na outra. No limite, mesmo reconhecendo que gostei mais, agora, do Mike Leigh, tenho de admitir que me emocionei muito com o divã do diretor José Alvarenga Jr. e de Lília Cabral, realmente fabulosa no papel. O bom é que esses filmes ‘de mulheres’ falam também de relacionamentos. E de homens.