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Luiz Carlos Merten

29 Abril 2008 | 15h16

Monique, com QU não CK, era o nome do travesti do Carandiru, na peça ‘Salmo 91’, de Dib Carneiro Neto. Monique fazia a imitação de Gal Costa (‘Índia’) tão bem que o Rodolfo, que fazia o papel, ganhou o Prêmio Shell (embora todo o elenco o merecesse). O Festival de Audiovisual do Recife começou transgressor, senão exatamente do ponto de vista da linguagem, pelo menos do comportamental, com ‘Amanda e Monick’. Ainda não consegui formar uma idéia definitiva do longa brasiliense, ‘Simples Mortais’, de Mauro Giuntini. A produção é de Márcio Cury, que também produziu ‘O Romance do Vaqueiro Voador’, e pelo filme de Manfredo Caldas eu tive uma empatia imediata. O do Mauro me pareceu uma mistura de coisas fortes com outras mais banais. O filme conta os destinos cruzados de vários personagens em Brasília. Só se cruzam num elevador, no final. Di Moretti assina o roteiro. Saímos do Centro de Convenções de Olinda no mesmo ônibus do festival e eu quis logo saber de quem havia sido a idéia do elevador -dele ou do diretor? Foi dele, mas para saber o que significa no contexto do filme, vocês vão ter de assistir. Alguns dos personaggens de ‘Simples Mortais’ não me tocaram nem um pouco – a jornalista que quer engravidar de qualquer jeito, o professor de poesia que se envolve com a aluna sexy. Não há nada de novo por aí. Mas entre os personagens existem um pai e um filho quase tão transgressores quanto a dupla de travestis. O garoto não parece do bem – rouba um cigaro de um sujeito caído na rua, um sem-teto -, mas se preocupa sinceramente com o pai viúvo (a mesma idéia aparece no começo de ‘Falsa Loira’, de Carlos Reichenbach. A gente faz uma falsa idéia da loira, que só se esclarece quasndo conhecemos seu pai.) O velho de ‘Simples Mortais’ não tem relações sexuais há não sei quanto tempo. O filho contrata uma prostituta como presente de aniversário para papai. Na melhor cena, eles fumam um baseado juntos. A cena me lembrou o encontro geracional de ‘O Selvagem da Motocicleta’, quando a geração do álcool encontra a das drogas. O público do Recife rebentou em aplausos, em cena aberta. Os atores são maravilhosos. Chico Sant’Ana faz o pai e o filho, eu não sei quem é, mas é muito bom. Pois é – depois de ‘Amanda e Monick’, outro filme, e foi o ‘Simples Mortais’, colocou em xeque, aqui no Recife, a família tradicional. Como não pude ir ao debate – estava na lan house – também não pude perguntar ao Mauro (diretor) se Coppola foi referência ou mera coincidência. Não encontrei nem o Di Moretti para me elucidar. Mas vou descobrir. Aguardem!