Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Simão do Deserto’ (2)

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

‘Simão do Deserto’ (2)

Luiz Carlos Merten

09 Janeiro 2009 | 14h40

‘Simão do Deserto’ situa-se na Síria, no século 5º, mas foi feito no México, com metade dos recursos que haviam sido prometidos a Buñuel. Ele se inspirou na vida de vários santos e não apenas na de Simeão do deserto. Lembro-me de haver lido, não sei mais se na autobiografia (escrita por Jean-Claude Carrière) ‘Meu Último Suspiro’, que Buñuel explicava sua atração pelos assuntos religiosos dizendo que era pela atração fatal do abismo ou, simplesmente, consequência da educação espanhola. Simão reza e durante 40 anos fica no alto de uma coluna no deserto, comendo salada, bebendo água e dormindo amarrado a uma corda. Faz milagres e é tentado pelo Diabo, que lhe aparece sob diversas formas – uma garotinha que pula corda e recita em latim, o Cristo, outro santo, um camponês, uma mulher de cabelos vermelhos e túnica, uma garota moderna que usa roupas masculinas. O Diabo o conduz aos anos 60, a uma boate de Nova York, onde ele assiste a uma performance de jazz por uma banda que parece os Beatles. O próprio Buñuel, no programa do Beaubourg, resumia seu trabalho. Simãoo tem uma barba longa demais que é aparada, ele se aborrece e o filme termina. Buñuel dizia que, se o produtor Gustavo Alatriste (casado com a estrela Silvia Piñal) tivesse lhe dado mais dinheiro, teria feito uma obra excepcional, talvez a sua obra-prima. Pressionado, ele reduziu ‘Simão do Deserto’ de seis para cinco rolos – é um média-metragem, pouco mais -, tendo de renunciar a muita coisa. Queria uma coluna de 18 metros e filmou uma de oito, queria mil figurantes numa cena e teve 80, queria uma cena com moscas na barba de Simão e Alatriste recusou. As cenas no deserto foram feitas com uma velha câmera e uma só grua. Ou seja, Buñuel fez ‘Simão do Deserto’ com a mesma precariedade de ‘Um Cão Andaluz’, no começo de sua carreira. Mas o filme permanece tão especial quanto enigmático. Não se parece a nenhum outro (nem de Buñuel). As referências a Sade, à religião e à burguesia desconcertam, mas é sempre a liberdade narrativa, a alegre disposição com que Buñuel dinamitava as convenções que seduz. Gastal estava certo. Eu era tolo nos anos 60 para conseguir penetrar de cara nos mistérios e provocações de Don Luis. Lembram-se de Julien Bertheau como mordomo, discutindo a graça enquanto arruma suas mesas, em ‘O Estranho Caminho de São Tiago’? ‘A Via Láctea’ é um desdobramento, ou prolongamento, de ‘Simão’. Vocês devem saber, mas nma juventude Buñuel formou um trio inseparável com Salvador Dalí e García Lorca. O poeta foi morto durante a Guerra Civil Espanhola, Buñuel e Dalí brigaram por causa de Gala, que incitava o pintor a se render ao Deus-dinheiro. Sempre achei muito impressionante que esses tyrês amigos tenham seguido caminhos tão diversos. Bu]ñuel foi o que teve mais tempo de permanecer fiel a si mesmo (morreu aos 83 anos). Mas seu medo final era o de um solitário. O que ele mais temia era morrer de olhos abertos e não ter quem os fechasse.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato