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Luiz Carlos Merten

09 Janeiro 2009 | 14h05

Régis comenta que nunca havia visto ‘Simão do Deserto’. O filme de Luís Buñuel ganhou o prêmio da crítica em Veneza, em 1965. Dois anos depois, o mestre aragonês do surrealismo voltou ao Lido com ‘A Bela da Tarde’ e aí a recompensa foi maior – ele ganhou o Leão de Ouro. Buñuel recebeu também a Palma de Ouro (por ‘Viridiana’, em 1961, ex-aequo com um um filme que nunca vi, ‘Une Aussi Longue Absence’, de Henri Colpi) e o Oscar da Academia de Hollywood (em 1972, por ‘O Discreto Charme da Burguesia’). Sei que ele ganhou um prêmio em Berlim, mas não me lembro qual. Ou seja – os maiores festivais do mundo e até o cinemão reconheceram um dos talentos mais selvagens (e iconoclastas) do cinema. Acho que já escrevi aqui que não me impressionava muito com Buñuel. Havia visto seus clássicos ‘Un Chien Andalou’ e ‘L’Age d’Or’, conhecia alguma coisa de sua fase mexicana (‘Los Olvidados’, ‘El’ e ‘Nazarín’), mas impliquei com ‘Viridiana’ e simplesmente não conseguia entrar em ‘O Anjo Exterminador’. Não aceitava que Buñuel, exilado da Espanha pelo franquismo, tivesse voltado ao país para fazer ‘Viridiana’, reproduzindo a Santa Ceia de forma blasfema, quando a beata acolhe os mendigos que tentam abusar dela. Achava a Santa Ceia de Buñuel divertida –não era o que me incomodava –, mas para um antifranquista nunca entendi, até hoje não entendo, como nem por que ele fez Silvia Piñal ser resgatada no final do filme justamente pela polícia uniformizada do General Franco. Me parecia (parece) um contrassenso. Em Porto Alegre, P.F. Gastal rezava na cartilha (no anti-Evangelho) de Buñuel e eu, literalmente, tripudiava no velho. ‘A Bela da Tarde’ me balançou um pouco. A presença de Sévérine no bordel de Madame Anaïs subvertia tradição, família e propriedade com o reforço do erotismo gélido de Catherine Deneuve, mas o que me fascinava, fascina até hoje, é a linguagem do filme, que mistura passado e presente, realidade e imaginação, numa narrativa em bloco sem começo nem fim. ‘Simão do Deserto’ eu não tinha visto, mas ‘O Estranho Caminho de São Tiago’ me divertiu muito com suas blasfêmias que misturavam Cristo e o Marquês de Sade sem a menor cerimônia. Jesuscristinho que corre agitando as melenas e a freira que se crucifixa no convento jansenista são imagens que até hoje me perseguem. Meu clique com Buñuel veio com ‘O Discreto Charme’. Achei genial e me encantou que Buñuel não precisasse forçar a barra como em seus primeiros filmes para continuar e até ser mais demolidor, de uma forma agora absolutamente serena. Desde então, tornei-me devoto e até repensei alguns filmes, dos quais passei a gostar mais (‘El’, principalmente – no Brasil, chamou-se ‘O Alucinado’; era, até onde sei, um dos filmes preferidos de Lacan, mas nunca li nada dele sobre as obsessões do personagem de Arturo de Cordova). Finalmente entrei no universo fechado de ‘O Anjo Exterminador’ e o filme, na minha cabeça, virou uma cruza de ‘Marienbad’, de Resnais, com ‘O Silêncio’, de Bergman. Vi ‘Simão do Deserto’ na França, no Beaubourg, numa programação especial dedicada a Buñuel. Não faz muito tempo, foi depois de um festival (de Cannes, porque fazia calopr). Havia uma exposição muito interessante que juntava, por meio de fotos, obsessões do autor. Por exemplo, o seu fetichismo – sapatos, relógios, o básico do bestiário surrealista. Ac hei que ‘Simão’ de alguma forma era um rascunho, não um filme completo. Continua no próximo post.

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