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Luiz Carlos Merten

03 Julho 2008 | 19h41

Chega de diários – existem coisas que já estão rolando por aqui e que me interessa comentar. Mal cheguei e já recebi um telefonema – da Mona, da Cinnamon -, pedindo minha opinião sobre o que eu acharia (assim, no condicional) de um ciclo Bergman, para assinalar os 90 anos do grande diretor (no dia 14). Distribuidores e exibidores estão em dúvida se vai valer a pena, mas eu não tenho dúvida nenhuma. Acabo de voltar de Farö, ainda estou com o meu Bergman fresquinho na cabeça, mas olhem os filmes disponíveis para este possível ciclo – ‘O Sétimo Selo’, ‘Morangos Silvestres’, ‘A Flauta Mágica’, ‘O Ovo da Serpente’ e ‘Da Vida dos Marionetes’. Adoraria saber a opinião de vocês. Gostariam de assistir a este ciclo, ou acham bobagem? Espero que vocês gostem e até prometo encaminhar as respostas para a Mona, a título de incentivo. (Envio de qualquer jeito, se vocês não acharem interessante, para mostrar que se trata de um programa de risco, mas não acho que seja o caso). ‘O Sétimo Selo’ foi o filme que Margarethe Von Trota, convidada internacional da Bergman Week, escolheu para exibir em Farö, na semana passada. ‘Morangos Silvestres’ é o meu Bergman preferido (com ‘Gritos e Sussurros’) – quantas vezes terei de escrever isto? Gosto mais que de ‘Persona’ (Quando Duas Mulheres Pecam), embora tenha sido muito interessante visitar, na ilha de Bergman, as principais locações de cenas decisivas com Bibi Andersson e Liv Ullman naquele filme. Será que vou ver ‘Persona’ com outros olhos, a partir de agora? Uma grande especialista de Bergman, Birgita Steene, fez uma ‘lecture’ em Farö sobre a importância da infância na obra do autor. A análise dela, muito rica e complexa, privilegiou a famosa cena do necrotério, quando o garoto ressuscita em ‘Persona’. Mas a verdade é que existem dois filmes nesta programação – ainda não confirmada – que me parecem particularmente atraentes. Sempre achei que ‘O Ovo da Serpente’, que Bergman fez no exílio alemão, com produção de Dino De Laurentiis, era um equívoco do grande diretor, mas agora não estou muito certo. Comprei no Bergman Center, em Farö, um livro chamado ‘Bergman Revisited’, que é uma coletânea de ensaios muito interessantes sobre Bergman como diretor de teatro, cinema e ópera. Achei particularmente revelador o ensaio sobre Bergman montador de Shakespeare, no Real Teatro da Suécia. Sua releitura de ‘Hamlet’ e ‘Rei Lear’, as opções para encurtar os textos e a utilização do espaço dramático me deixaram nos cascos. Mas há, no tal livro, outro ensaio sobre ‘O Ovo da Serpente’, que inscreve o filme numa tendência do cinema europeu da época – Visconti com ‘Os Deuses Malditos’, Bertolucci com ‘O Conformista’, Liliana Cavani com ‘O Porteiro da Noite’ e Pasolini com ‘Salô’ – e faz uma interpretação muito complexa de seus personagens (e situações), vendo na gênese do nazismo, segundo Bergman, uma premonição do capitalismo – do valor do dinheiro – no mundo global. Mas é o outro filme do exílio alemão que me atrai. Nunca mais revi ‘Da Vida dos Marionetes’, mas na época o impacto foi tão grande que coloquei o filme numa lista de melhores do ano. A violência, a sexualidade exacerbada – que muita gente considerava no limite da pornografia – tudo mexeu comigo. Com o recuo histórico, gostaria de rever os ‘Marionetes’. Terá sido fogo de palha ou o filme é tão grande quanto me pareceu? E aí, vocês são a favor do tal ciclo, ou não?