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Luiz Carlos Merten

08 Julho 2012 | 13h16

Fui ver ontem ‘O Violinista no Telhado’ só por causa de uma cena de que gosto muito no filme de Norman Jewison, de 1971. Aliás, é ‘O’ ou ‘Um’ violinista? A cena é aquela em que Topol, assistindo ao casamento da filha, pegunta se aquela mulher é a mesma garotinha que ele viu correr e aninhou nos braços. Quando vi o filme pela primeira já tinha idade para ser pai, mas ainda não era. Lúcia veio bem mais tarde, mas eu sempre achei a canção ‘Sunrise/Sunset’ a mais bela do filme baseado na peça de Joseph Stein, por sua vez adaptada da série de histórias de Sholem Aleichem sobre o povo de Anatevka. O leiteiro Tevye e sua defesa da tradição, em choque com os rumos que vão tomando as vidas das três filhas, o violinista no telhado (como metáfora da fragilidade do povo judeu sob o jugo dos totalitarismos). Tenho uma relação complicada com musicais, não os da grande fase de Hollywood – Minnelli, Donen, Sidney e Cukor, mas essa série que tentou (tenta) reproduzir a Broadway em São Paulo. Não gostei do ‘Violinista’, mas o número ‘Amanhecer/Entardecer’ não me decepcionou. Os diretores Moeller e Botelho emularam direitinho Norman Jewison. Fiquei pensando com meus botões. Na véspera havia visto ‘Os Persas’, de Ésquilo, no Club Noir, um espaço, digamos, mais alternativo na Rua Augusta, mas cuja plateia me pareceu bem menos esquisita do que a do Alpha. Não quero provocar ninguém, mas quando autores consequentes – Gabriel Villela, Roberto Alvim – buscam a síntese, os musicais seguem a tendência oposta e é tudo prolixo, e eu diria pró-lixo, apesar do luxo da produção. Nenhuma ideia original, um modelo importado (da Broadway) e por que aquele dó de peito do líder dos ‘russos’ de Anatevka? Só para mostrar que, sim, nós temos tenor? Mas a cena de ‘Amanhecer/Anoitecer’ valeu a ida ao Alpha. E, agora, como pai, ela me emociona mais ainda. Fiquei com vontade de rever o musical de Jewison. Não é um grande diretor. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’ destaca ‘No Calor da Noite’, ‘Crown, o Magnífico’ e ‘Rollerball’, mas entende os detratores que criticam o gosto do diretor por efeitos visuiais gratuitos e temas demasiado ambiciosos (para suas limitações). Palavras duras. Eu nunca me esqueço de que, na época, chegavam ao Brasil duas revistas francesas que depois pararam de circular – ‘La Revue du Cinéma’ e ‘Écran’. Confundo-me, mas acho que foi na segunda que um crítico chamado Ruy Nogueira – quem era? Português? -, defendeu ‘O Violinista no Telhado’ apaixonadamente, considerando o filme ‘genial’. Um grande filme?  Música (John Williams) e fotografia (Oswald Morris) ganharam Oscars e o solo de violino era de Isaac Stern. Tevye é um grande pertsonagem, mas Hélio Nascimento, em Porto, nunca aceitou que ele, confrontado com as mudanças, engolisse a rebeldia de duas filhas (a que primeiro escolhe o marido e a que se liga ao revolucionário socialista), mas punisse a terceira, que se casa com o gói, o não judeu. Eu achava aquilo triste a não mais poder e de acordo com o clima (a diáspora) do desfecho. Vejam que, para quem não gostou de ‘Um’ Violinista no Telhado’, duvido que algum daqueles espectadores que saíram cantando ontem do Alpha ainda esteja pensando tanto no que viu.

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