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Luiz Carlos Merten

10 Junho 2012 | 14h29

Se eu fechar os olhos sou capaz de ouvir, no meu imaginário, o som que precede as entradas em cena de Lady Kaede em ‘Ran’, de Akira Kurosawa. O filme é adaptado – livremente – de ‘Rei Lear’, mas Kurosawa buscou em outra peça de Shakespeare, ‘Macbeth’, a inspiração para a mulher que impulsiona o marido a pilhar e matar. Kaede é uma gueixa. Move-se como se estivesse deslizando sobre patins e o farfalhar da seda – o tecido – antecipa sua presença para o espectador. Como viajei muito ( Recife, Cannes etc), não acompanhei o processo criativo de Gabriel Villela em ‘Macbeth’ e não sei quanto ele deve a Kurosawa, o próprio, mas sua Lady Macbeth é barroca e é japonesa, coisas que não são excludentes e a melhor prova disso é a igreja de N.S. do Ó, em Sabará, um tesouro da humanidade. Gabriel quis fazer seu ‘Macbeth’ só com homens. Cláudio Fontana é a sua lady. Usa uma máscara branca de gueixa. Move-se com graça e lentidão, mas não excessiva. O que determina o tempo do movimento é o tecido, a musseline de seda, que tem de esvoaçar no palco. O efeito é hipnótico, mas Gabriel, por mais importância que confira ao visual – aos figurinos e cenários -, tem o respeito do texto e o texto aqui é simplesmente considerado a maior criação de Shakespeare. Com todas as minhas limitações para falar de teatro elizabethano – não sou nenhum especialista -, vacilo em concordar com os que dizem que ‘Macbeth’ é a mais barroca das peças shakespearianas, e a maior de suas criações. Há algo que me incomoda justamente na construção, ou desconstrução da lady. Depois da festa, sua loucura é muito rápida e só a cena da loucura não me prepara para sua morte narrada. Mas o texto está todo lá. Nenhum outro diretor brasileiro de teatro, ouso dizer, possui respeito tão grande pelo texto clássico. Gabriel trabalha com preparadoras de voz, Francesca Della Monica e Babaya, e o resultado é extraordinário. Marcelo Anthony diz aquele texto sem nenhum coloquialismo nem naturalismo. As palavras saem límpidas, graves, fortes. E a postura…! Cláudio, como a lady, evita a caricatura. Nenhum falsete, uma voz neutra, se é que p0osso dizer assim. Nem feminina demais nem viril, como a de Anthony. E o figurino dele, como rei, só perde para o do narrador. Aquele vermelho ficou gravado na minha retina. O narrador é um achado, embora já tenha ouvido que algumas pessoas acham que ele cria redundâncias, dizendo coisas que os personagens repetem (ou antecipam). Mas o narrador, com o livro na mão, vira o próprio conceito da encenação. Vemos a montagem sair da página – e voltar para ela, na morte da lady, que é uma das coisas mais assombrosamente belas que vi nos últimos tempos. Gostei demais, e só me incomodam um pouco as bruxas, que criam um ruído cênico – na voz, no figurino, nos gestos – quebrando o paradigma de um jeito que não entendi muito bem. Achei ‘Hécuba’, a tragédia grega de Gabriel Villela, mais perfeita. Desde ‘Salmo 91’, de meu amigo Dib Carneiro Neto, é  minha montagem preferida entre todas as que ele propôs (e são obras notáveis, de Nelson Rodrigues e Lúcio Cardoso). Mas isso não é defeito, é conceito. Uma das falas mais importantes é a da bruxa – ‘O belo é feio, o feio é belo. Vamos voar por este mundo tão singelo.’ Quando formulei minha crítica anterior ao texto, talvez o próprio Shakespeare soubesse disso e por isso criou as frases. ‘A vida não passa de uma história cheia de som e fúria, contada por um louco e significando nada.’ Ah, Shakespeare. O sábio é louco, o louco é sábio. ‘Macbeth’ está sendo um sucesso no Teatro Vivo. Casa cheia todo dia. Quero rever o texto e conversar com Gabriel, que está em Belo Horizonte, acompanhando montagens de rua de ‘Romeu e Julieta’, a versão que levou para o Globe, e ‘Ricardo III’. O voo que ele propõe é de novo magnífico, sobre seu mundo não tão singelo.

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