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Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2007 | 13h31

Morreu Sidney Sheldon. Crítico que se preze nunca deu valor a este autor de best-sellers, que arrebentou no mercado editorial de todo o mundo. SS – pelamor de Deus, parece sigla de nazista – escreveu também para TV e cinema. Na TV, foi o criador da série Jeannie É Um Gênio e no cinema ganhou o Oscar de roteiro por O Solteirão Cobiçado, de 1947, com Cary Grant e Shirley Temple, além de haver ligado seu nome ao musical cult, senão clássico, Desfile de Páscoa, de Charles Walters, com Fred Astaire e Judy Garland, mais a música (sublime) de Irving Berlin. Mas tem mais – em 1977, Charles Jarrott adaptou um dos livros mais conhecidos dele, O Outro Lado da Meia-Noite. Se há uma coisa que admiro, é o despudor dos críticos franceses. Eles têm uma cara de pau, ou uma coragem, que não reconheço em lugar nenhum. Nestas paragens, os críticos só vão às vias de fato em defesa das obras malditas e dos miúras. Na França, desde os tempos de Cahiers du Cinéma, na fase de capa amarela, os críticos sempre adoraram ir contra os nomões, promovendo umas coisas que… Vou te contar. Que Buñuel, que nada! Bergman? Cahiers, no fim dos anos 50, adorava o Don Weis. A revista achava que As Aventuras de Haji-Baba era uma pérola saída das Mil e Uma Noites. Don quem? Fui até o Dicionário de Cineastas de Jean Tulard, editado no Brasil pela LPM, para lembrar direitinho o que ele escreve sobre O Outro Lado da Meia-Noite. É um tal de elogiar que só vendo… Tudo bem. Ele elogia o filme, logicamente o diretor, mas a maneira de contar a história permite supor que o elogio se estenda ao livro. É a vingança de uma mulher abandonada que se vê obrigada a abortar com um cabide de aço e que sucumbe, por sua vez, vítima de uma vingança ainda mais atroz. Marie-France Pisier, a atriz de François Truffaut no episódio de O Amor aos 20 Anos, é quem faz o papel e a cena do fuzilamento dos amantes por uma pelotão de execução, ela usando seu vestido de noiva, é uma extravagância que sai diretamente das páginas de SS. Tulard considera injusto o fracasso desta obra delirante. O Delírio era de SS, mas Jarrott, segundo o crítico, o passou com convicção para a tela.