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Luiz Carlos Merten

01 Julho 2007 | 14h12

Vou pegar carona no comentário sobre o Lumet. Engraçado é que outro dia fui procurar um negócio (uma foto) de Sydney Pollack no arquivo do Estado e a Madalena, que lá trabalha e sabe tudo sobre cinema, me disse que preferia o outro Sidney, o Lumet. Bem – voltando a ele, gosto muito de muitas coisas do Lumet, mas lamento que ele não tenha sido mais exigente consigo mesmo. Sua carreira tem algumas derrapagens feias, coisas que ele poderia (e até deveria) ter evitado. Lembro-me sempre de uma coisa que a crítica americana Pauline Kael escreveu sobre ele, ao acompanhar a produção de O Grupo para um ensaio/reportagem incluído em seu livro Kiss Kiss Bang Bang. Pauline ficou constrangida com certas observações do Lumet sobre o próprio trabalho. Ela deixa mais ou menos sugerido que ele não sabia o que estava fazendo, o que não é verdade, claro, pois Lumet até escreveu um livro de reflexão sobre o ato de dirigir (que foi editado no Brasil). Revi Doze Homens e Uma Sentença em Cannes, em maio, na homenagem a Henry Fonda, e é muito legal. Lumet estava estreando em Hollywood e o filme tem uma decupagem com o pé na TV, mas o elenco é muito bom e o clima, também. É o tipo do filme que Hollywood não faz mais. Nem o remake do Friedkin, que tinha a particularidade de ter sido rodado ao vivo, para transmissão direta na TV, era tão bom. E eu gosto muito do Henry Fonda, o Sr. Homem Comum, lutando contra a indiferença daqueles jurados para aplicar a sentença justa. Que preto-e-branco! Truffaut tinha razão – os filmes em preto-e-branco são mais bonitos. Gosto muito, como já disse, de vários filmes de Lumet – Longa Jornada, Limite de Segurança (baseado no mesmo livro que inspirou Dr. Fantástico, do Kubrick), O Homem do Prego (sua obra-prima), Serpico, Assassinato no Oriente-Express (um regalo para quem, como eu, adora Agatha Christie – e a linguagem, então! O filme tem planos-seqüência notáveis), Um Dia de Cão. Acho muito interessante o jeito como Lumet resolve o problema do espaço. Vários de seus filmes passam-se em espaços fechados, claustrofóbicos. Não foi por acaso que ele fez tantas adaptações de peças (Tennessee Williams, O’Neill, Chekhov). Mas tem um filme dele que acho horroroso – O Encontro, de 1969, com Omar Sharif e Anouk Aimée, uma coisa meio Antonioni, sobre um advogado que se envolve com uma mulher que termina por destrui-lo, mas tudo isso narrado com lentidão exasperante, como se o tema fosse o vazio daquelas vidas. Taí! Vai ver que era. Me deu vontade de rever O Encontro (The Appointment). Será tão ruim como persiste na minha memória. E se tiver sido um Lumret adiante de seu tempo? Ó dúvida cruel!