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Luiz Carlos Merten

22 Fevereiro 2007 | 14h28

Na hora de titular o post anterior brinquei de David Lynch. Dois dias em Paris é o título do filme de Julie Delpy que fez o maior sucesso em Berlim. Mesmo no último dia, o público fez mais filas para ver o filme dela do que O Casamento de Tuya, que ganhou o Urso de Ouro (e é bom). Dois Dias em Paris tem um pouco da estrutura dos filmes que Julie e Ethan Hawke escreveram para Richard Linklater, Antes do Amanhecer e Antes do Pô-do-Sol. Acompanha esse casal (Julie e Adam Goldberg) que circula por Paris, mais falando do que fazendo amor. Julie, além de bela mulher e atriz, é muito interessante como diretora. Tem algo do primeiro Woody Allen, alguma coisa assim. Mas, agora, de volta a Paris e a Paul Verhoeven. Gosto dele. Já gostava dos seus primeiros filmes holandeses e acho que, em Hollywood, Verhoeven conseguiu usar a máquina do cinemão para expressar seu imaginário, que não é menos bizarro do que o de Lynch, mas que ele desenvolve numa linguagem menos cifrada. Black Book foi o filme que ele fez de volta à Holanda, insatisfeito com as condições de trabalho em Hollywood. É verdade que Verhoeven andou tendo algunas fracassos e isso comprometeu sua posição na indústria, mas ele diz que também não agüentava mais o puritanismo do cinema de estúdio. Black Book parece coisa de doido. Conta a história desta mulher judia que entra para a resistência e cuja missão é tornar-se amante de um oficial nazista. Ele vai se revelar mais digno do que o herói, que é traidor e a sucessão de provocações inclui cenas nas quais integrantes da resistência, chegando ao poder, após a derrocada do nazismo, praticam selvagerias tão grandes (senão maiores…) quanto as dos soldados de Hitler. Há um diálogo inacreditável em que o chefe da resistência, também ele um homem digno, tem de escolher entre duas missões de resgate e diz, claramente, que não vai sacrificar o filho por um punhado de judeus ricos. É um universo demencial, no velho conceito de Fuller, que Verhoeven trata por meio de imagens de choque para discutir a ética num mundo no qual ela parece ter desaparecido. Você deve se lembrar da cena em que Sharon Stone cruzava as pernas em Instinto Selvagem. Verhoeven agora pôs para quebrar. A heroína é morena. Tinge o cabelo de loiro e, já que tem de ir para a cama com o nazista, resolve pintar também os pelos pubianos, para não despertar suspeita. Ela escancara as pernas diante do espelho e começa a pintar. A câmera está ali, não filmando em detalhe, mas de uma distância razoável, para que o espectador veja. Ela dá um pulo e grita que está ardendo. Black Book é um pouco a história de uma mulher cujo sexo está em chamas, confrontada com graves questões políticas do século 20. Ela faz não importa o quê, mas não perde a integridade nem se deixa dominar pelas chamas de suas paixões. Essa mulher, num determinado momento, vai se vingar. Sua vingança é gélida (e cruel). É pegar ou largar. Eu adorei.

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