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Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2009 | 18h27

Assisti agora de manhã a ‘Shirin’, de Abbas Kiarostami. Tenho grande admiração por ele e por suas pesquisas de linguagem, principalmente quando Kiarostami investiga as possibilidades do plano sequência. ‘Dez’ e ‘Cinco’ são filmes farois para mim, mas não creio que tenha deglutido o ‘Shirin’. Talvez fosse até melhor esperar um pouco antes de escrever o que quer que seja. Cinéfilo que se preze já deve ter ouvido falar no filme como uma radical experiência de cinema fora de quadro. Kiarostami abandona o plano sequência e investe num cinema de montagem. Ele pega um poema persa do século 12 e não deixa claro se o que estamos ouvindo é um filme ou uma representação teatral. Ouvem-se as falas, efeitos sonoros, mas todo o filme se constroi no efeito que a história de Shirin causa no público, predominantemente formado por mulheres (embora existam alguns homens na plateia). No começo, estava achando interessante, mas o procedimento, pela repetição, começou a se esvaziar para mim e eu terminei perdendo o ponto. Todas as mulheres são iranianas, menos Juliette Binoche, que representa um papel, pois Kiarostami a faz usar o véu tradicional. Acho, por isso, que a maneira correta de ver ‘Shirin’ é por aí, por esse detalhe (que é fake) e entra em choque com a emoção profunbda que Juliette está sentido (ou que, como atriz, finge sentir. Lembram-se de Fernando Pessoa? ‘O artista é o fingidor que finge ser dor a dor que sente de verdade.’) Ainda estou pensando, mas o filme, com certeza, não me produziu uma empatia imediata.