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Luiz Carlos Merten

05 Abril 2011 | 11h47

Contei para vocês que assisti em Paris a ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’. Vi o filme no cinema, numa versão restaurada, cópia zero bala. Tinha todos os motivos para isso. Além do meu amor por Billy Wilder, sou leitor devoto de narrativas policiais. Leio autores novos e às vezes tenho a impressão de haver esgotado minha cota de escritores hard boiled, como Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Gosto mesmo é de Sherlock Holmes, Agatha Christie e Georges Simenon, que releio sempre. É raro vocês me encontrarem sem um exemplar de Agatha ou Simenon no bolso, que compro em bancas, nas edições pocket da L&PM. O volume da vez no meu bolso é ‘Hora Zero’, que comprei ontem, com a última aparição do superintendente Battle na obra da dama do mistério. Mas se falo de ‘A Vida Íntima’ é porque o filme de Wilder acaba de ser lançado em DVD pela Versátil. Já está nas lojas. Wilder foi muito criticado, em 1970. Mestre do cinismo (e do humor), os críticos talvez esperassem dele uma virulenta abordagem, ou desmontagem, do mito. O Sherlock toxicômano e melômano está todo lá, mas Wilder minimizou, ou nem forneceu, as sugestões de homossexualismo na relação do gênio da dedução com seu amigo e biógrafo, o dr. Watson, que a maioria talvez estivesse esperando. Ao invés disso, estabeleceu uma narrativa episódica e romântica, na qual os diversos esquetes terminam por se articular e completar. No começo de sua carreira, nos anos 1940, Wilder destacou-se no filme noir, numa época em que Alfred Hitchcock, emigrado, como ele, para os EUA, ainda formatava seu suspense bebendo na fonte de Freud. Nada mais distante dos pactos de sangue de Wilder do que os interlúdios de Hitchcock, mas tenho a impressão de que Wilder, beirando os 70 anos – nasceu em 1906 – finalmente se sentiu livre para emular Hitchcock e assinou, com ‘A V ida Íntima de Sherlock Holmes’, o filme mais hitchcockiano que o mestre do suspense não fez, com ecos de ‘Rebecca, a Mulher Inesquecível’, de 1940. Confesso que tive grande prazer assistindo a ‘Sherlock Holmes’ e espero que vocês também experimentem esse prazer estético no DVD. Wilder fez apenas mais quatro filmes depois. Com exceção de ‘A Primeira Página’, adaptado da peça de Ben Hecht que já havia sido filmada por Lewis Milestone e Howard Hawks, nenhum deles foi muito bem aceito pela crítica. Vejo e revejo ‘Avanti! Amantes à Italiana’ cada vez com maior prazer e acho que é um Wilder muito melhor do que parecia em 1972. ‘Fedora’ me desconcerta, mas aquela Norma Desmond que se faz substituir pela filha para preservar a imagem é a última figura noir, em sua desmesura, a irromper no cinema do grande autor. Sobre ‘Amigos, Amigos, Negócios à Parte’, não posso falar. Até hoje não consigo explicar porque nunca vi o filme no cinema – nem na TV. Assisti a partes, talvez tenha visto o filme inteiro, mas nunca de forma corrida, o que dificulta a apreciação. E Deus!, como Geneviève Page, a espiã de ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’, era linda! Não saberia citar muitos filmes dela, mas os poucos me marcaram. A princesa Doña Urraca de ‘El Cid’, a dona do bordel de ‘A Bela da Tarde’ (Madame Anaïs), Geneviève era, com perdão, foda, senhoras e senhores.

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