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Luiz Carlos Merten

12 Fevereiro 2007 | 15h03

BERLIM – Nao tenho tido muito tempo de checar os comentarios, mas ao ligar hoje no jornal me disseram que a repercussao sobre o que escrevi sobre La Mome foi muito forte. Que bom! O filme me tocou de uma maneira muito profunda e a atriz Marion Cotillard me pareceu tudo de bom. Contei que Leon Cakoff tambem chorou vendo o filme sobre Edith Piaf, que eh a propria negacao do titulo, La Vie en Rose. A vida de Piaf foi mais um dramalhao e por isso eu entendi como elogio quando alguns jornalistas brasileiros aqui em Berlim me disseram que o filme era justamente isso – um dramalhao. Comecei hoje a manhah assistindo a When a Man Falls in the Forest, de um novo diretor, Ryan Goslinger, que virou queridinho da critica em Sundance. O filme eh medio. Muito Sundance para o meu gosto. Acho que soh A Pequena Miss Sunchine, radicalizando a ideia do que seja um filme independente americano, ultrapassou o limite. When a Man… mostra um bando de gente infeliz, malcasada, mal-amada, mal-empregada, mal tudo. Todos tiveram mais ou menos a mesma origem, frequentaram a mesma escola, mas agora um eh faxineiro, o outro eh funcionario de segunda categoria numa grande empresa e assim por diante. O roteiro fornece a cada ator sua grande cena. Timothy Hutton tem cinco minutos fantasticos, quando ele fala ininterruptamente ao telefone deixando uma mensagem de amor para a mulher – que Sharon Stone deleta sem se dar ao trabalho de ouvir. Sharon estah acabada no filme. Sua grande cena eh no supermercado, quando ela veh a felicidade dos demais casais e se dah conta da m… em que estah com o marido. Fiquei tao impressionado que passei pela coletiva para ver como Sharon anda, na vida. Achei-a deslumbrante, mas confesso que nao tive muita paciencia. Sharon virou a sra. Consciencia Social em Hollywood. Diz que vivemos numa sociedade Prozac, que precisamos reinvestir nas relacoes humanas, que um outro mundo tem de ser possivel. Concordo integralmente, mas Sharon nao responde mais aas perguntas que lhe fazem. Tudo agora eh motivo para um pronunciamento, uma coisa mais solene, tipo Vejam o que estou dizendo! O pior foi que achei o filme nao propriamente ruim, mas velho. Nos anos 60, em filmes como Sublime Loucura, O Magnifico Farsante e O Amor Eh tudo (Loving), Irvin Kershen conseguiu ir mais longe e dizer com muito mais graca o que Goslinger agora pretende. Achei interessante uma coisa que Sharon disse. A personagem dela quase nao fala. Como se constroi uma figura assim? Ela explicou que hah muitos anos teve o privilegio de trabalhar com George C. Scott e nenhum outro ator a impressionou tanto. Ele sabia escutar. Sharon diz que criou a personagem pensando nele, como se soh existisse por meio dos outros, como se soh falasse pelos outros. Interessante. Na vida, acho que ela tambem ganharia um pouco mais ouvindo.